segunda-feira, 6 de setembro de 2010

FORNO DE ALTA-GÁS-construçãO



Tenho sido consultado por muitas pessoas para cursos no meu ateliê. O Rafael, da foto, veio de Florianópolis, interessado na construção de um forno à gás. O forno à gás que construí, todo calculado, usando os dados do Maestro Chiti, com tijolo isolante, cilíndrico, é um forno muito prático. Primeiro porque é feito com tijolos isolantes, em cunha, sem rejunte, e pode ser desmontado e montado em menos de meia hora. Isso facilita muito a vida dos ceramistas, principalmente daqueles que dispoem de pouco espaço para montar seu ateliê. Além da praticidade, seu funcionamento é simples, gasta pouquíssimo combustível, atinge rapidamente a temperatura desejada. Tenho uma apostilinha de montagem do forno e vou explicando a sequencia.
Outra grande vantagem do forno é que, por ser feito em módulos, pode ser aumentado ou diminuído, de acordo com a necessidade. Por exemplo, se o ceramista tem uma peça maior do que o forno, em altura, pode ser adicionada uma camada de tijolos, aumentando a altura. Claro que daí muda o volume do forno e a capacidade do maçarico, a entrada e saída de ar devem estar preparados para isso, mas é simples.
Foi um dia tranquilo, o Rafael, vegetariano, com o astral característico das pessoas que não comem carne, foi anotando e, sendo arquiteto, tirou de letra a montagem do forno, talvez até melhore um pouco.
Enquanto isso, as Baitacas (psitacídeos característicos aqui da região) começaram a procurar espaços entre as telhas do meu ateliê para fazerem ninho, o que é um grande astral. Muito bom, muito bom....

VIDRADO DE CINZAS/AULA INDIVIDUAL



Através do meu blog, fui contactado por uma mineira, Sonia Guimarães, que está morando em Dubai que quis aproveitar sua passagem pelo Brasil para ampliar seu conhecimento cerâmico. Marquei com ela um dia de aula no meu ateliê. O interesse dela era em vidrados de Cinzas. Bom, estava com o material do Congresso de Cerâmica, da oficina que tinha ministrado. Tenho o forno de alta, em formato cilíndrico, de fácil manuseio, que atinge até 1350 graus centígrados, com apenas um maçarico de 50 kcal, que, num ciclo de 4 horas gasta menos de um bujão de gás de 13 kgs. Foi tranquilo. O assunto foi se estendendo para cerâmica indígena, arqueológica, pré-colombiana. Daí cada interesse vai longe e tenho uma admiração pela cerâmica de Santarem, arqueológica, o que proporcionou um bom bate e volta.
A Sonia é mineira de São José do Goiabal, mora há muito tempo em Dubai, menina interessada, perguntadeira, que foi anotando e gravando tudo o que queria, daí formando um momento de trabalho e estudo muito proveitoso.
Há anos que venho estudando cerâmica e estou atravessando um momento de retorno pelo meu trabalho. Tenho um amplo campo de estudo e pesquisa pela frente. Meu interesse é pelos vidrados de cinzas e de rochas. Vidrados de basalto, marrons, acho belíssimos, usando granito, também, rochas que encontro por onde vou, escórias, argilas de diferentes colorações. Tudo isso me interessa e estou pesquisando.
Enquanto isso, as primavera vem se antecipando e os sabiás laranjeira começaram a cantar timidamente ao mesmo tempo em que florescem as laranjeiras, tudo a ver, tudo a ver...

CERÂMICA EM CACATU









Fui a Cacatu, Município de Antonina, novamente encontrar-me com a turma de moradores locais que estão transformando-se em ceramistas. Com novos alunos, empre ampliando o quadro, fiquei esperançosos vendo que ainda querem cerâmica e estão melhorando.
Um dos problemas que sempre encontro nas localidades onde vou dar aula de cerâmica é a materia prima. Encontrar a argila plástica certa para poder usar sem que seja uma mão de obra toda vez que se deseja confeccionar uma massa é um desafio. O material anti-plástico é abundante em qualquer lugar, mas a argila plástica nem sempre é de boa qualidade.
Conheço um areal, perto de Cacatu, areal é um mina de extração de areia, legalizada pelo Instituto Ambiental do Paraná. A argila encontrada na parte inferior da mina de areia, ou entre camadas de areia, quase sempre é uma argila muito plástica, de ótima qualidade. Então, fui junto com o Albari, que está fazendo o curso, até o areal verificar a argila que estava sendo descartada. A draga estava com o motor quebrado e não tivemos acesso imediato ao melhor da argila, aquela que nos serviria, por estar imersa nágua. Todavia, apenas um descarte que encontramos, um pouco arenosa, já estava muito bom para adicionar ao que já tínhamos. Combinamos, então, que, dentro de 10 dias, voltaríamos com um caminhão para levarmos a argila plástica, quando a draga estiver funcionando.
Esta possibilidade de conseguir-se uma argila de boa qualidade e, ainda, a preços ínfimos, insignificantes, praticamente uma doação para pequenas comunidades, vai fazer com que as pessoas se beneficiem desta argila plástica e resolvam esta parte prática da melhor maneira possível.
O detalhe importante é que a argila, num areal, é um material indesejável, ele é descartado e o Instituto Ambiental exige que se dê uma solução dentro dos padrões legais. Por isso, ganhar essa argila é muito fácil. Noutras cidades, em Curitiba, por exemplo, essa argila é comprada pelas olarias e os areais e as olarias fazem essa parceria. O areal, então, fica com mais esse faturamento. No litoral do Paraná não há olarias e o material para ser transportado para as olarias de Curitiba encarece com o frete e não vale a pena. Falta uma logística nisso, parece evidente. Poder-se-ia contactar as Prefeituras das cidades onde se desenvolve o artesato e conseguir um transporte dessa argila de boa qualidade para suprir o artesanato local, já que o consumo é pequeno e todos sairiam ganhando. Já tentei viabilizar essa logística, mas encontrei alguma dificuldade para encontrar um caminhão caçamba para o transporte. Assim, quando estou próximo às jazidas de areia, tento resolver de maneira rápida e quando dá certo sinto-me gratificado.
O que foi realmente bom nesta nova semana é que os alunos melhoraram bastante na qualidade do modelado, limpeza, ampliaram o horizonte de trabalho.

VIVÊNCIA DE RAKU


Neste ano, devido à correria de aulas que estive ministrando em pequenas localidades, tinha quase esquecido as Vivências de Raku. Eu gosto muito deste tipo de movimento. Esta Vivência dura o dia inteiro. Pela manhã, aí pelas novas horas os participantes chegam e já são recebidos com um café, chá ou até um chimarrão, porque aqui no sul do Brasil, não se dispensa esta deliciosa bebida já conhecida pelos nossos indígenas pre-colombianos, de quem herdamos este hábito, quero dizer, roubamos também este hábito.
Costumo preparar na hora as soluções de vidrados que serão usadas nas peças. Tenho sempre prontas 3 peças por pessoa. Desta vez torneei vasos pequenos próprios para plantas suculentas. Mesmo porque se forem peças grandes não é possível colocar muitas peças por vez dentro do forno, o que quebraria a sequência programada que é de 3 queimas.
Procuro evitar as tintas tóxicas, o vermelho, amarelo, laranja, que contem selênio e cádmio, apesar do gostos das pessoas pelas cores mais vivas. Preparo os vidrados usando como frita o vidrado transparente CMF-096 e, nele, adicionando opacificante, óxido de estanho, argila branca ou caulim, e os pigmentos de cobre, cobalto e cromo. Com estes tres pigmentos já é possível ter belíssimos resultados e fica mais prático fazer as variações em cima do mesmo tema.
Minha companheira Beatriz prepara a comida do almoço e encerramento. Sempre alimentação baseada em produtos da região, com enfoque naturalista e opção para vegetarianos. A alimentação é essencial na Vivência, pois complementa de forma fantástica todo o envolvimento com a cerâmica. Beatriz é exímia cozinheira, chef admirada, e rouba a cena nos horários em que apresenta sua arte.
A turma, que foi organizada pela Magda que é ceramista, foi exemplar, todas mulheres, bonitas, bem humoradas, interessadas em aprender e obter bons resultados da experiência. Dia rápido, cheio de energia, alegria e bons resultados. Valeu!

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Calcário-Maquete




Estive dedicando-me à confecção de uma maquete de uma fábrica de Calcário. Aqui na Região Metropolitana de Curitiba tem uma produção alta de Calcário. O calcário é o Carbonato de Cálcio, CaCO3. O calcário tem inúmeras utilizações. Sua maior utilização é como corretivo de solo, pois aumenta o pH de solos ácidos e na fabricação de cimento. Para massas cerâmicas de baixa temperatura, até 1100 graus centígrados, o calcário, em torno de 13%, baixa o ponto de fusão. Dá, também sonoridade às peças. Nas indústrias cerâmicas de Campo Largo, o grande centro produtor de cerâmica do Paraná, o calcário é muito usado. Nas pequenas fabricas de produtos artesanais, com cerâmica de coloração branca, o uso de calcário é generalizado. O Calcário é, também, o mármore, o material das conchas marinhas, a calcita que foi usado como lente, também chamado de Espato da Islândia. A 820 graus centígrados ele se transforma em óxido de cálcio e gás carbônico.
Para fazer esta maquete contei com a ajuda fundamental da Rita, conhecida miniaturista de Curitiba.Ela aparece ao fundo na foto. No seu ateliê, junto com duas colaboradoras, foi possível construir a montoeira de traquitanas e tranquibérnias que compoem a maquete. No meu ateliê comecei a fazer a parte da base, com poliueratano, para dar volume e poder modelar a mina de calcário, bem como as instalações da indústria de transformação. O calcário é usado direto na agricultura e também transformado em cal virgem, para uso nas construções. Depois desta base estar pronta, a maquete tinha as dimensões de 0,60 m de largura por 1,90m de comprimento, transferi para o ateliê da Rita. O bom de trabalhar com uma pessoa que tem prática em miniaturas é que o que se deseja vai sendo construindo rapidamente = casas, correias transportadoras, galpões, telhados, fornos, etc.
Tive que estudar o processo de fabricação, visitar a fabrica, memorizar a sequência, visitar a mina, etc. Em toda a maquete fomos colocando os materiais que se usam no processo. Pintura da mina com a própria argila colhida no local, o calcário quebrado como pedras e, no processo, pó de calcário sujando as árvores, porque na fabricação o pó de calcário vai pintando os arredores da fábrica. Por isso tem legislação do Instituto Ambiental do Paraná que controla a poluição e a retirada do minério.
Esta maquete será usada no museu do Estado para visitação de escola, por isso, o processo didático da maquete.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

VISITA ÀS CERÂMICAS DE CUNHA-SP







Há muito tempo que pretendia ir a Cunha-SP conhecer os fornos noborigama já famosos em todo o meio ceramista brasileiro. Queria ver de perto como é o processo completo das cerâmicas, principalmente aqueles que começaram essa onda cerâmica da cidade de Cunha. Suenaga, Jardineiro, Mieko, Cidraes, Toledo, Lei e Augusto. Estes últimos já são a influência dos primeiros, trabalharam quando jovens com os ceramistas quando estes chegaram a Cunha. Hoje, realmente, é o resultado de um trabalho de trinta e poucos anos, semeando e trabalhando com muita garra para se impor no mercado. Cunha é um show, cerâmica por todo lado. Estava acontecendo também, um festival de inverno, São Paulo baixando em peso na cidade para viver o ambiente, gastar, clima de movimentação. De noite, fogos de artifício, mais uns zurros de jegue que escutei pela madrugada adentro.
Numa das fotos coloco o ateliê de Suenaga e Jardineiro e na outra o de Lei e Augusto. Os primeiros, os pioneiros e os segundos a segunda geração, habitantes de Cunha que aprenderam trabalhando quando mais jovens.
Como vivo em Quatro Barras, dentro da região Metropolitana de Curitiba, sinto a falta de trabalhos com fornos à lenha, de alta temperatura, principalmente no estilo japonês. Aqui não existem noborigamas. No Brasil tem poucos. A cerâmica que mais me interessa é essa de origem japonesa, com ela me identifico.
Foi muito interessante olhar de perto os ateliês onde os ceramistas produzem , ver os fornos noborigamas, que hoje parecem coisas comuns em Cunha. Foi uma influência positiva que me senti gratificado e enriqueceu o meu trabalho.
Conheço muito bem as dificuldades dos ceramistas na questão da sobrevivência com o seu próprio trabalho. As vendas são difíceis porque quem está totalmente mergulhado no seu trabalho quase que se desconecta das vendas e isso representa um impecilho ao desenvolvimento do próprio trabalho. A solução encontrada por Cunha, graças à esse gigantesco esforço conjunto, foi genial=trouxe o público paulista e brasileiro para os ateliês, para ali comprarem o seu produto. Mas isso não é assim sem mais nem menos, eles tem o que mostrar, o que vender. Minha admiração!
As queimas de alta temperatura, cone 11, com vidrados de rochas, feldspatos, sílica, cinzas, argilas, são belíssimos. O efeito do forno à lenha, do próprio fogo nas peças é o que todo ceramista procura. Não é fácil desenvolver uma linha de produto que tenha a identidade da pessoa e mais, ainda, que tenha qualidade. Exige muito trabalho, dedicação, desenvolvimento técnico, espiritual, tranqüilidade, competência, tenacidade, enfim um monte de qualidades que o indivíduo precisa cultivar para evoluir no seu trabalho e apresentar resultado.
De volta prá casa, olhei com carinho, aqui no meu ateliê, para o meu forno catenário e vou mandar lenha. Um forno noborigama com duas ou mais câmaras é demasiado grande prá mim. Atualmente trabalho mais com pesquisa. Vendo minhas peças no ateliê, não tenho grande produção. No futuro, talvez, com duas câmaras, fiquei atraído.

sábado, 24 de julho de 2010

RAKU



Tenho visto a Técnica de Raku espalhar-se rapidamente por todos os lados. A facilidade de construção de um forno, seu preço, talvez o mais barato de todos, e a rapidez dos resultados atrai sobremaneira. Quase todos os vidrados CMFs podem ser usados. Uma classificação simples de vidrado pode ser feita. Vidrados transparentes e vidrados opacos. Nos vidrados transparentes é possível usar a coloração da massa da cerâmica.
Comecei a simplificar a repetição das camadas de vidrados, de forma simples, fazendo uma solução padrão para ter sempre o mesmo resultado, sem pensar muito e garantir a eficiência. O CMF-096, vidrado transparente alcalino, é a nossa frita alcalina, brasileira, mais usada. Preparei uma solução, depois de ver várias consistências e testar seus resultados, assim: Tenho sempre uma solução de CMC pronta, com 0,5% de CMC diluído em água morna, depois ferver por menos de um minuto. Fica muito densa. Desta solução, coloco 10% para cada vidrado que eu preparo, depois completo com água. Todavia, vou adicionando a água e conferindo a densidade da nova solução com um densímetro de graus Baumé (Bé). Êsse densímetro é um areômetro que consiste num tubo de vidro, lacrado, com bolinhos chumbo na parte inferior, para dar peso e ele flutuar com o peso do chumbo mergulhad0. Ele possui na parte superior uma numeração. Esta numeração, usada nosso caso, um que tenha a graduação de 40 a 70 oBé. Quanto mais densa a solução, maior a flutuação da bóia. Na água do mar, a gente boia melhor porque a solução do mar é mais densa, pelos sais dissolvidos.
Bem, fui misturando o CMF 096 aos poucos, até que a solução chegue a 45 oBé. Pronto, é só repetir e sempre será igual. Se o preparado ficar muito denso, é só colocar água. Se ficar muito diluído, adiciona-se o pó do CMF. Esta solução , com esta densidade está no ponto para pincelar, verter ou imergir qualquer peça para ser queimada posteriormente. Vejam as fotos, usei uma cerâmica branca, a Shiro,do Paschoal, desta maneira.
Com este densímetro, é possível ir montando um padrão. Como cada CMF tem seu próprio peso, é necessário encontrar a densidade para cada solução. Neste esquema montado é possível pedir para uma pessoa que, sem qualquer experiência, nem entender nada de vidrados, preparar uma solução e resolver o trabalho.