sábado, 23 de janeiro de 2010

JANEIRO 2010




Segue aí uma foto de um vidrado turqueza. A técnica de vidrado é por vertimento. Gosto desta técnica, ela tem a ver comigo. Controle do movimento e rapidez no trabalho. Tenho essa tendência em pesquisar, errar, errar para ir aprimorando o movimento, a rapidez.Por isso, é comum que eu quebre uma quantidade de peças, depois de não gostar do resultado, para buscar a finalização do movimento e, assim, chegar naquilo que me interessa. Esse vidrado, turqueza, é feito com uma base alcalina. A basa alcalina é com bicarbonato de sódio, com um pouco de borax. Na verdade os ceramistas artesanais, artísticos, tem pouca possibilidade de comprar uma frita de baixa temperatura, alcalina, pronta para usar. Como alternativa, usamos o CMF-096 que se encontra em todas as lojas de materiais cerâmicos. Como esse vidrado é transparente, na verdade ele é uma base alcalina. Seu ponto de fusão é 980 graus centígrados. Para obter o resultado da fotografia, usei 14% de óxido de estanho SnO2 e 3% de óxido de cobre Cu2O.
Quando o óxido de cobre é usado em base alcalina a sua coloração resultante é o turqueza e o tom depende da concentração desse óxido de cobre. O óxido de estanho é para opacificar o esmalte. Para que aparecesse esse escuro nas partes não vitrificadas eu passei óxido de cobre diluído em água, com um mínimo de CMF-096, só para aderir o óxido de cobre e dar essa coloração escura, para efeito contrastante com o vidrado. Depois de passar o óxido de cobre, retirei o excesso com esponja úmida.
Como o óxido de estanho aumenta a temperatura de fusão e para dar mais brilho ao vidrado,fiz a queima a 1050 graus centígrados, com patamar de 20 minutos. O resultado é esse!
Se a base fosse plúmbica, a coloração do vidrado seria verde.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

VIVENCIA DE RAKU 12/12


No dia 12 deste mes aconteceu a ultima Vivencia de Raku do ano. Voltam as velhas praticas cada vez mais maceteadas, simplificando para que todos aproveitem em sua totalidade. A Vivência sempre tem algo mais, pois permite um entrosamento descompromissado com as pessoas e o trabalho é lúdico. Não existe uma obrigação de obter um resultado que seja fantástico, embora seja procurado. Perder o medo de errar é importante. Não ter medo do ridículo, ou seja, entregar-se à experiência sem se importar se o resultado não será apreciado pelos demais, mas, sim, encontrar uma forma gostosa de entregar-se a um momento, com intensidade. Os resultados simples quase sempre são os melhores. Normalmente as pessoas querem empanturrar a superfície de vidrado e, depois, o resultado não fica aquelas coisas. Eu, particularmente, gosto do gestual, do vidrado sendo passado em movimento. Isso é o que procuro é o que me interessa. Estou sempre atrás de um movimento que considero adaptar-se perfeitamente à peça. ESta tem que ser analisada em sua totalidade e buscar o vidrado que nela se encaixa. Depois, estudar o gesto, o movimento que, rapidamente, vai dar a cobertura que combinará com a forma. Ainda tem a cor que melhor vai realçar as qualidades das peças. Tenho procurado em pesquisas bibliográficas muitas formulações de vidrados para Raku, mas acho que a pesquisa tem que ser individual, pela compreensão dos vidrados e, então, inventar uma formulação que seja inusitada, que surpreenda. Os óxidos corantes mais usados são o cobalto, o cromo, o ferro e o cobre. O cobre, sim, pela sua coloração verde ou azulada, dependendo do vidrado, se é alcalino ou plumbico, e, ainda, com a imersão em serragem, reduzindo o oxido de cobre à sua forma metálica, sempre chama mais a atenção. Quando o efeito mescla as duas cores, o verde e o cobre, as peças combinadas com o preto da serragem, sempre é muito bom. Mas o efeito lambido, certinho não é o meu caminho. Procuro o rustico, a "simplicidade elegante", conceito zen que é a própria definição do Raku. Ainda sobre os vidrados, acho que o ceramista que está interessado em aprender deve começar por entender como funcionam os vidrados. Quais são os fundentes, o que é o vidrado propriamente dito (sílica, borax, vidrados alcalinos de sódio), e o feldspato como agente que controla a massa vítrea para que seja melhor distribuida num espaço de temperatura maior. É preciso, então, estudar um pouco sobre as formulações de Seger, ou seja, os grupos, alcalino, neutro e o ácido. Daí poder ficar mais fácil inventar formulações que sejam inéditas e que caracterizem de forma única o trabalho individual. Pode-se trabalhar com o borax, colemanita em vidrados borácicos. Também o Carbonato de sódio para formulações azuis belíssimas conhecidas milenarmente. Depois com o transparente alcalino ou plumbico vendido em lojas de cerâmica pode muito bem ser usado com os óxidos corantes. Não gosto do plumbico porque em redução fica meio cinza e perde muito a qualidade transparente. Para opacificar pode ser usado o óxido de estanho a 14%. Depois, só experimentar.
A Vivência tem, ainda, uma outra parte, que fica ao encargo da Beatriz, a chef que aparece na fotografia. Vestida à caráter ela é a responsável pelo almoço e pelo lanche de encerramento. Com seu amplo conhecimento culinário ela agrada a todos com seus preparados deleciosos, com o olhar na saúde, usando o que tem de melhor para alimentar bem o corpo e o espírito.
Para completar a Vivência, o espaço onde ela ocorre é muito agradável. É numa chácara e que tem 50% de área de preservação. O enfoque é Natureza = flores, frutas, árvores. Com isso tudo, as Vivências sempre acontecem num clima de congraçamento num alto astral e os resultados são muito gratificantes.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

CERÂMICA, NATUREZA, PRIMAVERA





A primavera sempre renova a vida. Os ciclos retornam trazendo novo alento. Aqui na minha casa, um casal de baitacas (periquitos da região) fez um ninho no beiral da casa. Repetiram o feito do no ano anterior, quando, para alimentar eles próprios e seus filhotes, acabaram, litaralmente, com a produção de peras de uma pereira que fica encostada à casa. Neste ano apareceu um mamífero pequeno que entrou pelo telhado e destruiu o ninho. Escutei o barulho, à noite, nas nada pude fazer. Meu medo era de que o casal de baitacas tivesse sido comido pelo mamífero, o qual, a princípio, julguei que fosse um gambá. Depois, aliviado, descobri que o casal sobrevivera, mas o ninho, não e eles sumiram dois dias depois da tragédia. Dei caça ao mamífero, pois além das baitacas, tem outros três ninhos de andorinhas, dois de corruíras que vivem no entorno da casa: telhado e paredes. Era um ratão, coisa rara por aqui, pois quase somente aparecem camundongos, que é comum nas matas. Quem deu fim ao ratão foram os cachorros, pois numa manhã ele estava no terreno, já acabado. Conferi os ninhos de andorinhas e corruíras, todos intactos. As baitacas acabavam com as minhas peras (o que considerava até uma vantagem por apreciar o desenvolvimento da família de psitacídeos). O ratão acabou com o ninho, os cachorros acabaram com o ratão. Tudo voltou ao normal. O ciclo repete-se e a vida continua.
Hoje está uma manhã de neblina que envolve a Serra do Mar. No vale onde corre o riozinho que atravessa o meu terreno está levantando um fio de evaporação. O dia está entrando suave, cálido, a natureza, na primavera, resplandece (... apenas raia, sanguinea e fresca, a madrugada... o velho Raimundo Correia). Eu me sinto agraciado por estar com paz de espírito para contemplar, ainda, a Natureza. Aproveito e vou tomar um banho no rio, faço um exercicio de alongamento, seguido de uma prática de Tai Chi Chuan, para me sentir mais integrado ao ambiente.
Depois dessa introdução o dia comum começa. Tomo um café e vou ao meu ateliê dar sequencia à minha atividade cerâmica.
Não posso deixar de ser influenciado, no meu trabalho, por esta manhã. Pelo dia de ontem, também, assim como pelos anteriores. Meu trabalho é o reflexo disso tudo. Não posso desvincular minha vida, meu trabalho, de toda a trama que me envolve neste breve intervalo de tempo que estou de passagem pelo planeta Terra.
É a Cerâmica que escolhi para trabalhar, passar o tempo, desenvolver-me espiritual e profissionalmente. Não é o único campo de interesse, mas foi o que defini como sendo aquele em que poderia me divertir, trabalhar, evoluir e, ainda, sentir-me feliz, na prática profissional. Trabalhar a terra, modelar o barro, transformar pelo fogo. A Arte não tem fim, limite, isso é o mais interessante, não tem linha de chegada. Tem objetivos, metas, mas o caminho é cheio de variantes que permitem adaptações, caminhando no rumo do que nos atrai. No campo da Cerâmica, estou interessado em tudo. Primeiramente no estudo de massas cerâmicas. As massas podem ser de baixa, alta temperatura, massa para utilitários, Raku, terracota. Na cerâmica de alta o grês, realmnte é o que gosto mais. Além das massas, tem o tipo de queima. Queima rápida, elétrica, à gás, à lenha, redutora, oxidante, neutra. Nisso tudo estou interessado. Depois de encontrar o tipo de massa, a maneira de queimar, começa o novo campo que é o de vidrados. A composição dos vidrados, o conhecimento dos materiais, seus pontos de fusão, misturas eutéticas, corantes, pigmentos, rochas naturais que podem ser usadas como vidrados, argilas, engobes, etc . Isso é apenas a parte técnica que permite expressar aquilo que estamos procurando, o que estamos querendo mostrar.
Depois disso tudo definido é que começa realmente a longa caminhada para a expressão próprio do indivíduo. Como sou Engenheiro Químico, a primeira parte é mais lógica, de mais fácil acesso, pois a Química Básica, que é o que se usa na cerâmica, tira-se de letra. Como meu campo de interesse é muito amplo, meu trabalho tem que ser laçado e ajuntado para eu construir uma unidade. Nisso que me dedico mais, atualmente, além do estudo da cerâmica propriamente dita. Minha poética, qual é? Sei que estou conectado à natureza, que sofro com a degradação planetária, e que a fraternidade humana é algo que, na prática, não existe. Então, conceito, poética, minha natureza, mais a necessária aplicação para o desenvolvimento do modelado (que é outro departamento enorme), são meus desafios neste momento. Preciso e quero colocar tudo isso no meu trabalho.
As fotos das aves são da minha casa. O caquizeiro, encostado à minha casa, fica lotado de passarinhos, comendo os caquis, à curta distância e eu posso fotografá-los tranquilamente com uma tele 300.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

CERÂMICA BÁSICA - MEU ATELIÊ




De 03 a 06 deste mes comecei um curso de cerâmica Básica no meu ateliê, patrocinado pelo Senar. Pôxa, no meu ateliê é outra história. Tenho todos os materias necessários para ensinar e produzir massas, bem como queimar à gás, lenha ou elétrico. Não é necessário improvisar. Comecei produzinho uma massa para queima em baixa temperatura, para raku e, ao mesmo tempo, serve, também, para confeccionar panelas e formas que vão ao fogo. Coloquei 50% de argila plástica que chamo de padrão pois tenho umas 10 toneladas no meu quintal e que vieram das margens do rio Miringuava, afluente do rio Iguaçu. 20% de uma argila branca, plástica que comprei na Mineração Bassani em S.Luis do Purunã-PR. Para resistir ao choque térmico, adicionei 10% de talco, 10% de chamote de tijolo e 10% de sericita, um quartzo malha 200 que compro numa mineração aqui próxima. São materiais que possuo em abundância e que tem preços baixos. O resultado foi uma massa de 10% de retração de coloração rosada, clara.
A segunda parte do curso aconteceu nos dias 16, 17, 18 e 19. Então, para ampliar a qualidade do curso, produzimos uma massa para 1200 graus centígrados. A composição dessa massa foi assim: 40% da argila padrão acima mencionada, 15% de argila branca da Bassani, mais 15% de argila chocolate da Bassani, 10% de caulim Palmonari, 10% de talco e 10% de quartzo. Esta massa, sem chamote, ficou muito lisa, fina, gostosa de trabalhar, inclusive ao torno. Alguns alunos aproveitaram para treinar a tornear com esta máquina cerâmica de grande utilidade e, também, quase indispensável num ateliê cerâmico. Mesmo a massa com chamote, para raku estava boa de se usar no torno. Isso graças à massa vermelha do rio Miringuava que tem grande firmeza e auto-sustentação em estado cru, quando torneada ou modelada.
Como tenho maromba extrusora e também um torno cerâmico, as coisas fluem facilmente e o resultadio acaba sendo mais qualitativo.
Nesta semana, como as peças secaram, depois de acabadas, foram queimadas em forno elétrico. Aproveitamos para uma queima de Raku, pois as peças da primeira parte do curso, queimadas sem nenhuma perda, em forno elétrico, estavam prontas.
Os vidrados de raku sempre produzo na hora. Colemanita com argila branca ou caulim, com ou sem óxidos colorantes. Uso, também, carbonato de sódio, apesar de ser solúvel, o que dificulta a técnica de pintura, porém funciona como informação básica sobre solubilidade dos vidrados.Ao carbonato de sódio, de alta solubilidade, adiciono argila para formar uma suspensão e, para aumentar o ponto de fusão, sílica, e mais os corantes. Os azuis de carbonato de cobre são os do antigo Egito e tem aquela atração milenar dessa coloração belíssima. No mais, uso uma base alcalina, quase sempre o CMF 096 e adiciono um opacificante, argila e corante cerâmico. Assim, com os óxidos de cromo, cobre, cobalto, ferro e manganês, vou obtendo as colorações básicas dos vidrados. Evito bases plúmbicas porque, em redução, tendem a ficar cinza.
Foi um curso tranquilo. As pessoas trazem um lanche, ou alguma comida preparada. Somando tudo, fica mais harmônico e gostoso. Um bom lanche, ou almoço, garante uma continuação de trabalhos com renovação de ânimos....

domingo, 1 de novembro de 2009

CURSO DE CERÂMICA BÁSICA EM CAMPO MAGRO-PR


A cidade de Campo magro fica na Região Metropolitana de Curitiba. No ano passado dei um curso e construí um forno para queima de biscoito. É o mesmo forno que construo em meus cursos. Este forno apresenta várias qualidades. A primeira é que se presta muito bem para o uso de queima de biscoito cerâmico. Ele também é muito barato, pois pode ser feito com tijolos comuns, dois, quatro, seis furos, tijolos usados, refratários, isolantes, etc. A facilidade de construção é notória. Basta dizer que, num dia de trabalho, com 4 pessoas dá para concluir a obra. Depois de construído, sempre espero uns 10 dias para fazer a primeira queima. Nos meus cursos não dá tempo para fazer a cura do forno. A cura vem a ser a primeira queima para queimar o próprio forno, primeiramente. Senão, a queima já com peças, fica muito mais longa e prejudicada, pois o forno ainda não está completamente seco e queimado. Como o rejunte dos tijolos é feito com massa das argilas que encontro no próprio local onde construo o forno, ele precisa ser queimado para, então, fazer parte do próprio forno.
Quando faço uma queima de biscoito normalmente demoro umas 8 a 9 horas. Dificilmente dá para diminuir esse prazo, a menos que eu carregue na massa areia e chamote. Por isso são notáveis as queimas diretas a céu aberto, de uma hora ou um pouco mais. A qualidade das peças fica um pouco prejudicada nestas queimas rápidas. O resultado da queima de biscoito nestas queimas de forno como aparece na fotografia é de grande qualidade. Claro que a massa tem que ter um componente plástico testado. Ele é que vai dar a resistência à cerâmica. Por isso é que se encontra cerâmica vermelha, ou seja, tijolo de péssima qualidade, porque a mistura da massa não contempla um percentual de argila bem plástica, ou porque carregam no anti-plástico para diminuir o custo, já que o plástico é mais difícil de ser encontrado.
Fiz duas queimas de cerâmica nestes 8 dias de curso em Campo Magro. O forno já estava bem curado. O resultado foi excelente. A trabalho cerâmico estava parada neste local onde retornei, para reativar a vontade de continuar a produzir cerâmica. Estas queimas foram muito bem feitas. O forno está funcionando perfeitamente. Fiquei impressionado com a simplicidade da queima. O consumo de lenha foi muito baixo. Como usam-se galhos finos para as 3 horas finais de queima, e, na região tem muita vassoura (também chamada caparaoca) e eucalipto ( que é a melhor), foi moleza.
O local é o Recanto Nativo, onde a Sandra e o Ozir comandam uma propriedade Agroecológica. Eles são uma espécie de alavanca para impulsionar uma série de atividades que envolvem a agricultura orgânica e o desenvolvimento artesanal da região.
É difícil, às vezes, conseguir-se com que as pessoas se envolvam num trabalho novo, como é a cerâmica. Mas com vontade, insistência conseguimos motivar as pessoas para a fabricação inicial de vasos simples para cultivo de suculentas e cactáceas, como uma forma de agregar valor ao trabalho. Nesta propriedade que tem restaurante e inclusive pousada, vêm muitos turistas e podem ser vendidos estes vasos. Sei muito bem que quando se começa um trabalho artesanal de confecção de vasos simples, com desenvolvimento artístico incipiente, não se pode concorrer com uma olaria que fabrica vasos torneados com torneiros no metiê há quinze anos ou mais, produzindo um enormidade por dia. O preço destes vasos é ridículo de baixo. Então, os vasos confeccionados manualmente tem que ser diferenciados e agregar valores, como é o caso das plantas
"O carpinar é sozinho, a colheita é comum", já dizia o Riobaldo Tatarana.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

VISITA DOS CERAMISTAS DE TIBAGI-PR





Nesta quinta-feira, dia 22 de outubro, recebi a visita da turma de alunos de Cerâmica Básica de Tibagi-PR. Neste começo do ano dei dois cursos nesta cidade, os quais aparecem em reportagens anteriores.
Foi muito interessante esta visita, muito real e emocionante. Emocionante, primeiro, porque trouxeram os vídeos das queimas que fizeram, sozinhos, independentes. Foi muito bom. Para isso é que se presta um curso. O resultado foi excelente, a queima perfeita, todas as peças muito bem queimadas.
A turma uniu-se e conseguiu superar a inércia que impede o desenvolvimento e mandar bala num resultado prá lá de compensador. Vejo que exemplos desta natureza compensam o investimento e não só isso, mostram que, realmente, existe a possibilidade de se desenvolver um trabalho de geração de renda que resulte em independência para as pessoas. A cerâmica é uma atividade muito atrativa e as peças cerâmicas são estimadas por turistas e mesmo pelos os próprios habitantes da cidade. Assim, Tibagi, aqui no Estado do Paraná, com seu enorme potencial turístico que só é comparado a Fóz do Iguaçu, devido às cataratas, por Vila Velha, pela sua formação geológica de rara beleza e pela Serra do Mar em Curitiba,que tem o trajeto de trem atravessando o pouco que resta da Mata Atlântica, pode desenvolver seu comércio de forma concreta e conseguir um retorno imediato, é somente trabalhar.
A visita desta turma no meu ateliê preencheu um dia de muita atividade verbal, gastronônmica, e, também, para entrosar nos outros assuntos que sustentam a vida de cada um. Quero dizer com isso que não é somente o trabalho que aparece nestas situações, mas a vida que a pessoas levam, como elas sobrevivem, quais são os motivos que as direcionam para adiante. Nosso mundo está totalmente virado pelo avesso nas aspirações, pois as propagandas enganosas que se vê por toda parte em out-doors, comerciais televisivos, leros leros furados sobre o que é real nesta vida, tendem a distorcer o objetivo individual e coletivo.
O que pretendo sempre passar nos meus cursos é a possibilidade da pessoa, com seu trabalho cerâmico, tornar-se independente, livre de todas estas pressões de trabalho com horário marcado, não ficar sem trabalhar, mas ser independente, fazer seu horário, poder matar um dia ou outro de trabalho para fazer o que quiser, transferir seu horário de trabalho a seu bel prazer. Isso é muito bom, torna a pessoa melhor, dá essa sensação de liberdade que a gente precisa para encarar o sistema.
Desde que, pela primeira vez, estive na cidade de Tibagi, quando participei de uma Caravana Ambiental pela Secretaria do Meio Ambiente do Paraná, e que fazia pouco tempo que ela, a cidade, tinha recebido o título de A Melhor Cidadezinha do Brasil, eu notei o enorme potencial em termos de desenvolvimento de cursos de geração de renda. É claro que Tibagi já é famosa pelo seu Carnaval, que traz um desenvolvimento artístico muito interessante. Portanto, tem espaço em vários setores: artístico, artesanal, comercial, etc.
Com esta visão de futuro é que estou planejando apresentar para a cidade um projeto mais amplo de cerâmica, que vá além da Cerâmica Básica, de queima apenas do biscoito. Mas começar com um plano completo, treinamento, queima de baixa temperatura, com vidrado, alta temperatura, raku e os vidrados mais simples de cinzas, rochas e ainda com as argilas locais, misturando o que a cidade tem na natureza e sempre com cuidado com o meio ambiente. Ter em mente o objetivo principal que é viver melhor, participar dessa roda da vida do Universo com dignidade, porém com uma noção bem clara de limites para não ultrapassar as marcas do excesso individual em detrimento das gerações futuras.
Senti-me fortemente agradecido a esta turma de Tibagi e também feliz por ver um trabalho gerando frutos positivos.

domingo, 20 de setembro de 2009

PIRAQUARA - RETORNO-Cerâmica Básica




Ao voltar para a segunda etapa de quatro dias do curso de cerâmica Básica que ministro, sempre fico surpreendido como as pessoas evoluem. Quase todas começaram sem terem experiência anterior. Primeiro conhecer uma massa cerâmica e ser iniciado nas técnicas básicas. Então criar a intimidade com o modelado. Aperfeiçoar. Mesmo aqueles que relutam a princípio, acreditando que não tem habilidades, aos poucos vão aprendendendo. Quando alguém começa a sentir-se desassossegado por não conseguir modelar uma forma mais definida, deixo que tente mais um pouco, para sofrear o nervosismo e a angústia de não poder expressar-me como gostaria rapidamente. Normalmente as pessoas que tem pressão alta querem executar uma tarefa em pouco tempo, finalizar em três toques e já partir para uma nova peça. É um desafio. Neste caso, quando vejo que o resultado está indo para um caminho de insatisfação com o curso pela ansiedade de não conseguir resultado satisfatório e que levará possivelmente à desistência, mudo a forma de aprendizado. Recomeço por um modelado com técnica. Assim, para mostrar como modelar um objeto utilitário rápido, com bom resultado, independente de habilidades mais sofisticadas, sugiro recomeçar por algo mais simples, como um porta-sabonete, por exemplo. Ensino a técnica de esticar uma placa com cano de PVC 5cm de diâmetro, com suportes laterais para definir a altura da placa. Depois cato pelas cercanias uma folha que tenha um formato que sirva para uma saboneteira. Então pressiono a folha sobre a placa,com o rolo, ainda usando os suportes lateiras, praticamente enterrando a folha na placa cerâmica. Cuido sempre para que seja uma folha com boas nervuras, mas que a central não seja saliente demais, o que enfraqueceria a saboneteira, pois ultrapassaria a espessura ideal, deixando uma linha mais frágil que facilita uma rachadura. Depois de prensada, faço o recorte e retiro a folha. Então, para dar a forma na folha, coloco-a sobre uma madeira. Começo a elevar as laterais dando o formato à saboneteira e apoio sobre pedaços de jornal amassado para que sequem com o formato desejado. Cuido sempre para que esse formato seja o mais natural possível, dando curvas e graciosidade à saboneteira. Depois de secar o suficiente para que possa auto-sustentar-se, faço os furos para escorrer a água quando estiver funcionando e coloco os pés, quase sempre em número de 4, que fica mais estável. Assim já entra mais duas técnicas, primeiro como esticar uma placa e depois como colar uma peça cerâmica na outra. Sempre que é viável, misturo um pouco de silicato de sódio na cola. Porque o silicato de sódio sendo um desfloculante permite que a cola seja mais consistente. Isto quer dizer que, com menos água, eu faço uma cola que resulta mais eficiente. Depois de seco o acabamento é com lixa e finalmente uma esponja úmida completa a operação. O resultado sempre é bom. A naturalidade de uma folha que se observa na Natureza é o modelo. Assim o olhar começa a se desenvolver, para conseguir sair do modelado manual e entrar no modelado visual. Primeiro as mãos modelam, depois os olhos... Talvez essa seja a parte mais difícil para as pessoas comuns que tentam iniciar uma atividade artística. As mudanças de olhar necessárias vão mexer com o indivídio, seus paradigmas, o valetão do seu cotidiano. Isso incomoda a princípio porque é difícil, mas, depois, vem a satisfação, o prazer de estar aprendendo algo novo.
Neste forno que construí deixei que ele ficasse, por insistência do responsável pelo lugar, diretamente encima do cimento do piso. Normalmente quando acontece o caso de ter de construir um forno em situação semelhante, eu faço uma carreira de tijolos, encho de terra e soco bem. Depois começo a construir o forno. Assim, quando boto fogo no forno fica sobre terra, que é o ideal. Mas desta vez, sobre cimento, como ainda não fiz a queima, por falta de lenha, vamos ver no que vai dar. Possivelmente o cimento vai rachar, mas não passará disso.
Piraquara está encostada na Serra do Mar, uma situação privilegiada em termos de Natureza. Todavia, em menos de 15 anos a população dobrou de 100 para 200 mil habitantes. Isso transtorna qualquer lugar. É impossível comandar e organizar o crescimento com essa avalanche de seres humanos. Por isso Piraquara precisa de uma atenção especial para não detonar a belíssima Serra do Mar, tornando-se mais uma cidade inflacionada como dormitório de uma metrópole, no caso Curitiba. É um pouco triste ver as cidades em pouco tempo crescerem assustadoramente, descontroladamente, e saber que quem paga a conta é qualidade de vida de seus habitantes, ou seja, dos mais pobres, que vai piorando cada vez mais.