sábado, 4 de outubro de 2008

TRABALHANDO EM CASA-PRIMAVERA




Dei um tempo na correria de aulas e cursos. Nesta duas semanas ficarei em casa, dedicando-me ao meu trabalho próprio de produção cerâmica.Voltei ao torno depois de mais de um mês afastado. Preparei uma massa com chamote fino, talco e um anti-plástico de argila de cor vermelha intensa. A argila plástica é a mesma de sempre, das margens do Rio Iguaçu, 15 toneladas que comprei há poucos anos. Quero queimá-las na técnica RAKU. A massa ficou fina, gostosa de tornear. Estou produzindo vasos com biquinhos, nos quais procuro formas novas, mais aqueles que me inspiro no Hans Coopper, etc, etc. Nunca tenho um plano totalmente definido do que vou fazer. Quando ergo a peça é que realmente decido. Grande parte já sei como completar, mas, no meio do caminho é que realmente procuro uma forma de finalizar. Posso mudar de repente de idéia. A meta nunca é encarada como linha de produção. Sempre estou procurando aquela forma nunca feita. No torno não é fácil inovar. Tem aqueles formatos que a gente gosta, com as quais mais se identifica e que depois de vidradas completarão aquilo que queremos. Estou cada vez mais concentrando-me em vidrados mais rústicos. Mesmo nas queimas de raku. O craquelê está ficando cada vez mais intenso e agora estou trabalhando para aumentar ou diminuir o tamanho da rede de craquelê. São alguns conhecimentos que se vão adquirindo, mais os macetes práticos da queima. Uso até sal de cozinha, cloreto de sódio, para adicionar sódio, que aumenta o coeficiente de dilatão e favorece o craquelê. O borax, que é baratíssimo se comparado com a colemanita, adiciono para compor um vidrado transparente. É claro que o bórax, por ser solúvel, é chato de trabalhar e não dá para guardar as soluções que sobram, pois elas cristalizam, necessitando serem moídas para serem reusadas. Mão-de-obra! O bórax diminui o coeficiente de dilatação, funcionando ao contrário do Sódio, Potássio e Lítio.
Nas queimas de RAKU também tem o problema da forma. Formas mais fechadas, vasos com gargalos, bicos estreitos, resistem mais ao choque térmico do que pratos, ou formatos abertos.
Enquanto isso, estamos em plena primavera. Tenho muitas espécies de flores aqui na minha casa. A glicínia encheu de rendas as laterais da casa, agora restam poucas. As gabirobeiras deram floração intensa, prenunciando boa produção de gabirobas, com as quais faço geléia e mais uma deliciosa gabirobada cascão, o que é incomum. Sorte não ter geado tardiamente, o que diminui sobremaneira a produção de frutas. Tenho grande quantidade de dendróbios (orquídeas) espalhadas pelas árvores da chácara. Já cataloguei 16 espécies nativas de orquídeas aqui no meu espaço. Plantei, também, uma boa quantidade de frutíferas. O nosso clima aqui na latitude 25 graus e 1000 metros de altitude as espécies tropicais não vingam. Mas uva, pêssegos, caquis, maçãs, ameixas, nêsperas, kiwi, cítricos, amoras, peras, figos, etc, dão em abundância. Faço muitas geléias, com as amoras chilenas e uvas faço sucos. Desta última engarrafo uma boa quantidade para consumo durante o ano. A maior parte das amoras congelo no freezer para ter sempre fresquinhas, suco direto, misturado com água. Estou curtindo plantar physalis (Physalis angulata -uma solanácea com fruta amarela de 2 cm de diâmetro, aproximadamente), e rosella (p/ chá, suco com limão e geléia).
As aves também estão com a movimentação típica da primavera. Saíram daquele movimento calmo do inverno e os casais andam atarefados na construção de ninhos. No meu ateliê flagrei algumas baitacas comendo a tábua do beiral para cavar uma entrada = ninho. Andorinhas também buscam os beirais, mais os canarinhos da terra e as corruíras. Estas começam a cantar cedinho e é um prazer escutá-las. A manhã começa com os sabiás. Aqui tem o sabiá de peito vermelho, peito branco, coleira e o sabiá preto, chamado sabiá poca. Este último começa a cantar somente lá pelo mês de janeiro, aqui em casa, quando as outras espécies de sabiás já estão parando. Quando lembro da minha infância, sempre tem um sabiá laranjeira cantando. Dentro de um bote, descendo à camalote (como dizem os paraguaios=rio abaixo sem remar, ao sabor da corrente, Rio do Peixe, oeste de Santa Catarina). Ficava triste quando lá pelo mês de fevereiro diminuía o canto dos sabiás e aguardava a chegada da primavera para ouví-los novamente. Mas em fevereiro começavam os ariticus (araticus).Meu pai, expert em aves canoras, chamava a atenção para a variação dos cantos das diversas aves. O curió, azulão, canário da terra, pintassilgo, cardeal, coleirinha e, é claro, os sabiás. Destes o coleira era o seu preferido. Repetindo o grande ceramista, em sua carta pro Bernard Leach (citado em A Potter's Book), Shoji Hamada, "quando vejo as cerejeiras em flor, sinto que a cada ano a primavera vai entrando cada vez mais dentro de mim".

terça-feira, 30 de setembro de 2008

SENAR-CERÂMICA - Piaçaguera-Paranaguá-PR





Fui a Piaçaguera, na Baía de Paranaguá, ministrar o curso de Cerâmica Básica do Senar-PR. Lugar de grande beleza cênica, de frente prá parte leste da Baía de Paranaguá, com vegetação de mata Atlantica ainda densa e praticamente intocada. As árvores sãolotadas de bromélias, em alguns lugares o chão também. Muitas orquídeas e aquela abundância de vegetação densa com uma variedade que faz a mata Atlântica ser conhecida como a floresta de maior diobiversidade do planeta. Não esqueçamos que estamos na maior faixa contínua remanescente da Mata Atlântica. Só que é uma merreca, se comparada ao que foi devastado(sobraram 6%). Todavia esse pinguinho de mato ainda aí está, resistindo ao ataque desenfreado da nossa onívora civilização, por enquanto.
Nos primeiros quatro dias de curso em Piaçaguera pude perceber a necessidade que tem o nosso belo povo caiçara de substituir o seu modo de sobrevivência. Antigamente a pesca supria as necessidades. Mas, agora, dentro da baía, em frente ao porto de Paranaguá, os peixes minguaram, os plásticos nadam em cardumes e os biguás voam de lá prá cá, tentando desesperadamente identificar qualquer movimento de peixes. O artesanato local com cipós é muito bom. A cerâmica artesanal,por ser uma atividade que não agride o meio ambiente, é uma grande forma de sobrevivência que deve ser incentivada.
Voltei para completar o curso com ânimo total, tentando ensinar e aprender com este povo, oprimido e não recompensado pelo que está perdendo de cultura e dinheiro com esvaziamento das suas fontes de sobrevivência e pela opressão que também sofre pelos meios de comunicação. Uma enxurrada de produtos de péssima qualidade (tem em qualquer supermercado de qualquer cidade = conservantes, aromatizantes, corantes, flavorizantes, margarinas, açúcar, enlatados, embutidos, etc, etc.) para substituir a saudável comida retirada antigamente do mar, só vem completar o quadro.
São 8 dias de curso. É muito pouco! Estou tentando ampliar o curso, com acompanhamento, para que a inciativa que é muito bem recebida seja incentivada e aperfeiçoada. A cerâmica não se aprende rapidamente, salvo raras excessões. Precisa de muito treino e acompanhamento, até que seja aperfeiçoada. Construí o forno cerâmico artesanal, cuja queima saiu perfeita, como pode ser observado pela foto.
Para procurar argila com a finalidade de compor massa cerâmica, fomos pela praia. Na volta, por trilha no mato. Para quem mora em Curitiba, sem mar, é fantástico caminhar numa praia com vista ampla, panorâmica.
A Baía de Paranaguá tem tradição cerâmica. A Ceramista Senhorinha, da Ilha de Medeiros, deixou escola, muito embora quase só na lembrança. Consegui um vídeo com depoimento da Sinhorinha que deixei para os moradores de Piaçaguera. Este trabalho da Sinhorinha era uma tradição aprendida de seus antepassados indígenas. Usava queima direta colocando as peças no meio dos galhos secos de lenhas. A queima não durava mais que uma hora. Sinhorinha tinha grande habilidade, modelava todos os tipos de utilitários (vasos, panelas, jarros, etc), a maioria desenvolvidas por ela mesma, sozinha. Era ajudada pelo marido nas tarefas mais pesadas, como ir buscar o barro e fazer o fogo. Interessante que usava a velha proporção básica, 70% de matéria-prima plástica e 30% de anti-plástica, para compor a massa resistente à essa queima direta. Existe ainda muitas peças dela espalhadas pela baía, mas não restaram ceramistas. Acredito que assim que começarem a surgir centros de produção nas ilhas, este artesanato ressurgirá com força total.

sábado, 20 de setembro de 2008

VIVÊNCIA-FERACOMCIÊNCIA- R A K U


Mês de setembro e agora de outubro está sendo de muita correria. Ministrei várias oficinas de Raku. Primeiro a Vivência aqui no meu ateliê. Fantástica, com 11 participantes. Criou um clima muito bom, as pessoas mostraram grande interesse e o resultado apareceu, apesar de ser apenas um dia. Mas, sendo uma Vivência, o bom é o dia agradável, tranquilo, com boa onda e comida deliciosa. Assim foi. Ao saírem da Vivência as pessoas combinaram encontrar-se noutro dia para leros leros, tangos e boleros. Com essa mesma turma acabei indo assistir a um show de música italiana com um gancho na música brasileira, promovido pelo Consulado da Italia, chamado "A Vida é a Arte do Encontro". Foi organizado pela italiana Elvira, do Consulado, uma participante da Oficina. O título é sugestivo para continuação da Vivência.
Participei do Projeto Paraná em Ação, em Curitiba, ministrando 2 oficinas de Raku por dia, durante 6 dias. 12 queimas. Era para os alunos das escolas públicas Curitibanas e o povo que estava visitando o local e aproveitava para conhecer a queima de Raku e já participava passando um vidrado numa peça que estava à disposição, previamente biscoitada. Até os garis que faziam a limpeza da praça aproveitaram o momento e fizeram uma peça cada um que depois levaram para suas casas. Enquanto a queima estava acontecendo eles voltaram ao trabalho, retornando para a abertura do forno e limpeza das cerâmicas, resfriadas no ato, como acontece nesse tipo de queima. Foi interessante, o povo, alunos, as pessoas que participavam do próprio projeto, em frente ao Palacio do Governo, vieram conhecer a técnica e levar o resultado embora. O Raku realmente é uma forma alegre de trabalho cerâmico, muito rápido, eficiente e mesmo para pessoas que nunca tiveram experiência anterior de cerâmica o resultado é sempre positivo.

Participei, também, do Projeto Fera Comciência, da Secretaria Estadual de Educação, em Curitiba. O tema deste ano é a comemoração dos 100 anos a imigração japonesa. Aí é que o Raku se encaixa, como também nas oficinas anteriores. Técnica cerâmica de origem coreana e desenvolvida no Japão onde é usada desde o século XVI. O Projeto Fera Comciência é fantástico que não pode perder sua energia, pela grande quantidade de informações que os alunos da rede pública recebem e que são inesquecíveis para eles, pois nossa população que não tem condições de frequentar as escolas particulares também não tem condiçòes de frequentar nada. Só o fato de participarem de um evento artístico-científico já é inesquecível. A oficina era a mesma do Paraná em Ação, somente que para professores da rede pública. Foi muito interessante porque participaram professores de química, biologia e artes. A técnica de Raku é muito ilustrativa no caso da química, onde presenciamos visualmente um caso clássico de reação química de óxido-redução. Costumo ilustrar essa reação química com o pigmento óxido de cobre que é um verde usado nos vidrados. Quando se observa um fio de luz de cobre, que é vermelho, oxidado, aparece uma película esverdeada, é o óxido de cobre. Nos tachos de cobre também a oxidação deixa uma mancha verde que popularmente é conhecida como zinabre. Não confundir com cinábrio que é o mineral sulfeto de mercúrio. Bem, quando o óxido de cobre é misturado num vidrado transparente o resultado, após a queima, é a cor verde ou turqueza, dependendo da qualidade do vidrado (base plúmbica ou alcalina). Como a técnica de Raku usada no ocidente é um pouco diferente, criada pelo americano Paul Soldner, temos um sincretismo cerâmico nipo/ocidental. Lá a peça cerâmica quando,dentro do forno, atinge a temperatura de 1000 graus centígrados, é sacada para fora do forno e imersa nágua, para resfriamento imediato. Paul Soldner resolveu colocar primeiro na serragem, onde acontece uma redução forçada.Aí ocorre a redução química. A serragem, matéria orgânica, devido à alta temperatura, queima imediatamente, todavia, para a sua combustão necessita de oxigênio. Como no meio da serragem tem pouco oxigênio e a tampa do recipiente costuma-se fechar para melhor redução e ainda evitar a fumaça da queima, a serragem retira o oxigênio do óxido de cobre, transformando-o em cobre metálico de cor vermelha. O vidrado que seria verde torna-se vermelho. Exemplo claro, fácil de compreender. Possivelmente algum professor utilizará este processo para ilustrar sua aula, principalmente porque a química é encarada como uma matéria muito chata de difícil compreensão. Para os professores de arte o resultado final da queima é bonito e admirado.
Os vidrados Sangue de Boi, Celadon e Temoku, clássicos vidrados japoneses, também são obtidos com redução, só que a redução ocorre dentro do próprio forno e em alta temperatura, acima de 1250 graus centígrados.
Foram dias corridos, mas gratificantes...

domingo, 10 de agosto de 2008

VIVÊNCIA - RAKU E COPPER MATE-SALÃO










Algumas vezes por ano, abro meu espaço de trabalho para oficinas de Raku. Chamo de Vivência.Vivência porque o enfoque vai além da Cerâmica. É um dia de cerâmica que os interessados podem vivenciar. Apresento três peças já previamente torneadas e biscoitadas para que cada participante, no máximo 15, pinte. Depois é queimado, num forno próprio, retirado do forno a 980 graus centígrados e colocado na serragem para a redução química. Esta técnica foi inventada pelos coreanos, eternizada pelos japoneses e popularizada pelo americano Paul Soldner. A oficina começa às 9horas da manhã e termina às 17 horas. O almoço, bem como o lanche de encerramento é preparado pela minha companheira Beatriz, expert em culinária, com enfoque naturalista e com opção para vegetarianos. No dia 23 de agosto farei uma dessas oficinas = Raku e Copper Mate. Custo por pessoa = R$ 120,00. Quem se interessar, passe um e-mail para maiores detalhes.
No meu espaço de trabalho tenho o maior cuidado com a Natureza. Moro numa chácara, onde 50 % é área de Preservação. Meu ateliê está cercado de árvores.
Acho que não se pode separar a vida do trabalho. Por isso, durante anos batalhei para poder realizar aquilo em que acredito: trabalhar de forma independente, associar minha vida profissional à minha própria vida. Ao separar minha vida do meu trabalho uma parte de mim fica perdida, dissociada. Assim,viver de forma independente, tentando não dar força a essa corrente de desenvolvimento que está levando nosso planeta à falência múltipla, preservar o meio ambiente, fazer proselitismo ambiental, tomar atitudes mínimas que ajudem as pessoas menos favorecidas, não julgar os outros pelo seu poder financeiro, não dar importância para a sofisticação da aparência, tentar olhar o ambiente que me cerca, ter compaixão pelos outros, agradecer à vida, à saúde, é a minha meta.
Evidentemente que necessitamos de dinheiro, muito dinheiro! A cultura é caríssima, os livros têm preços absurdos, viajar é uma nota preta, pagar por bons cursos é necessário. O tempo também está muito rápido (efeito Schumann). Vejo as pessoas dizendo sempre isso, que não tem tempo, que não conseguem dar conta dos compromissos, que a vida se esvai mais rapidamente do que o crédito do celular. Então, todos têm sua charada particular. Precisamos matá-la para sobreviver de forma digna, satisfatória.
Todavia, ainda sobra um tempinho para alguma coisa. Agora neste final de julho, começo de agosto, em pleno inverno, aqui no meu ateliê, a cerejeira do Japão, Sakura, numa belíssima e intensa floração, transportou-me para a carta que Shoji Hamada escreveu para Bernard Leach, na década de 30 do século passado, que este reproduz no seu livro “O livro do Ceramista”: “...a cada ano ao contemplar as cerejeiras em flor, sinto que a primavera vai entrando cada vez mais dentro de mim...” Um bando de baitacas (família dos psitacídeos), umas 30, vivendo mais intensamente, aproveitou para saborear as flores da cerejeira. Um belíssimo espetáculo que reparto com vocês na foto acima.
Estou também, neste mês, preparando-me para o Salão de Cerâmica que acontece aqui em Curitiba, juntamente com o Congresso Nacional de Cerâmica. Trabalho algumas peças onde tento colocar minha visão da cerâmica e a minha visão das coisas que me cercam. Como posso expressar todo o sentimento que me impele a seguir adiante na vida e ao mesmo tempo colocar a minha tristeza por compreender que o ser humano socialmente está numa escalada insana, a população mundial sem qualquer possibilidade de controle, as mudanças climáticas já instaladas no planeta, o desenvolvimento tecnológico perscrutando o Universo mostrando maravilhas que somente as gerações atuais estão podendo ver, a Ciência em toda sua plenitude de desenvolvimento, são algumas das emoções contraditórios atuais. Como expressar esta alegria e ansiedade que sinto? Somado a isso, o meu conhecimento cerâmico e habilidade que desenvolvi até o presente.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

OFICINA FORNO DE ALTA - 1300 oC






Neste final de semana, sábado, dia 12 de julho, em Curitiba, no ateliê Arte Cerâmica de Sada Mohad, ministrei uma oficina de construção de forno de Alta Temperatura, artesanal, a gás.
Trata-se de um forno construído com tijolos isolantes, cilíndrico, com as dimensões externas de 80 de diâmetro e 90 cm de altura.
É muito simples e prático. A oficina começou com o forno pronto, montado. Imediatamente passei a desmonta-lo e remontei-o em seguida. Esta operação não demorou uma hora. Depois disso coloquei as prateleiras, algumas peças e iniciei a queima.
Este forno é também muito eficiente, com consumo mínimo de gás, tempo de queima controlado, com possibilidade de aumentar ou diminuir este tempo de queima.
Ele segue o modelo bolado pelo Mestre Argentino J. H. Chiti. Os modelos cilíndricos, segundo Chiti, são os mais eficientes: tem a melhor circulação, são mais fáceis de serem construídos, tem menor consumo de combustível. Evidentemente que estamos falando de fornos de pequenas dimensões, que permitem a carga e descarga pela parte superior.
O volume útil deste forno é de 58 cm de diâmetro por 80 cm de altura. Os cálculos de abertura para entrada de gás e ar, a potência dos maçaricos e abertura de saída dos gases foram feitos usando os dados fornecidos pelo Mestre Chiti nos seus livros e nos cursos que acontecem no Instituto Condorhuasi, como, por exemplo, aquele de abril deste ano.
A oficina queria apenas mostrar um forno barato, seu funcionamento, distribuição da temperatura no interior, acompanhado com controlador digital e cone pirométrico. Fixamos o tempo de queima, até 1200 graus centígrados, em 3h 30m, com patamar de 30 minutos. Todavia, com o objetivo de abreviar o final da queima, resolvemos completar a queima em 2h50m, com patamar de 30 minutos. Esta performance do forno foi conseguida com maçarico de 50kcal/h comprado no Instituto Condorhuasi, em Buenos Aires. É um maçarico feito especialmente para queima cerâmica, modelo que somente lá pode ser encontrado. Permite usar chama oxidante, neutra e redutora. É claro que para este tempo de queima não levamos em consideração maturação do vidrado, crescimento de cristais, etc, não era esta a meta da oficina. O consumo de combustível foi de aproximadamente meio butijão de gás de cozinha, de 13 kgs. O custo deste forno é de R$ 4.500,00, aproximadamente.
Nas fotos mostro o forno e as pessoas que participaram da oficina. Mostro também uma peça queimada num forno igual ao da oficina, com vidrado de cinzas, a 1263 graus centígrados.
Em agosto será repetida esta oficina no mesmo ateliê.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

TORNO CERÂMICO



Várias civilizações antigas reivindicam para si o mérito da invenção do torno, considerada por alguns como a mais antiga máquina criada pelo homem. Os gregos diziam que a roda de oleiro fora inventada por Pérdix, sobrinho de Dédalo, este o patrono da indústria.
Sempre é um desafio trabalhar no torno quando pretendemos encontrar alguma forma que personalize o nosso trabalho. Como o uso de torno é milenar, torna-se difícil tornear uma peça que já não tenha sido feita. As variações podem ser mínimas, mas o resultado como um todo sobressai. Algumas formas são consagradas. Os vasos gregos, ânforas, moringas, leiteiras, bules, filtros, formas abertas, fechadas, recipientes para todos os usos. Enfim, depois de todo o trabalho para aprender a centrar o barro, começar a erguer o cilindro, inicia-se uma nova etapa que é a de encontrar as linhas que nos agradem, que expressem aquilo que estamos desejando no momento.
As peças torneadas levam a vantagem de permitirem a construção rápida. Assim, podemos, uma vez definida a forma, produzir uma grande quantidade de peças iguais ou semelhantes.
Para testar vidrados o uso de peças torneadas pequenas de 10 a 20 cm de altura são excelentes.
Tenho produzido uma massa de boa qualidade para tornear. Como faço muitas queimas de Raku, 1000 graus centígrados, e de alta, 1265 graus centígrados, a maior quantidade de peças são aquelas que modelei no torno. Como gosto do efeito um pouco rústico no grês, resulta que as massas são semelhantes. A massa vermelha comporta-se muito bem na queima de raku, misturada com chamote e talco. Dependendo do efeito posso variar a granulometria do chamote e a própria cor do mesmo. Chamote de tijolo, chamote refratário de cor de queima branco ou escuro (que tem algum percentual de ferro na massa). A variação maior na massa de grês e para queima de raku é na argila vermelha e no talco. O grês não precisa de talco, que é caro. O talco é usado para dar resistência ao choque térmico. Químicamente é um silicato de magnésio = 3MgO.4SiO2.H2O. A argila vermelha deve ser usada em percentual menor no grês, sendo substituída por uma argila de queima branca e mais ainda o caulim, que tem alto percentual de alumina..
Algumas pessoas acham que o chamote grosso fere os dedos ao ser torneado. Todavia, para um efeito raspado com o aparecimento de sulcos ou pequenas crateras a granulometria grossa é indispensável. O que vale é o efeito. O torneiro sempre encontra uma maneira de evitar que o chamote machuque seus dedos.
Massa para torno:
Raku = Argila vermelha - 65%
Talco - 15%
Quartzo - 4%
Chamote - 15%
Bentonita - 1%

Grês = Argila vermelha - 30%
Argila branca - 40%
Caulim - 14%
Chamote - 15%
Bentonita - 1%

Há mais de 15 anos que preparo minhas próprias massas. Primeiro timidamente, indo buscar argila em olaria e adicionando material anti-plástico. Posteriormente fui ficando mais independente utilizando argilas de barranco, modificando a coloração da massa em função das argilas que ia encontrando, pela cor, pela beleza e vendo os resultados. Adquiri, com isso, muita confiança em preparar minhas massas e hoje em dia, confesso, para preparar as composições acima citadas, para raku e grês, eu não faço pesagem, a proporção é visual e a massa resultante, pela sua trabalhabilidade e aparência é o que busco. Como não necessito um padrão perfeito de repetição não há porque fazer sempre a mesma massa. Quando quero que as peças saiam com a qualidade igual, preparo uma grande quantidade de massa para o trabalho em vista.
A fotos é de peça torneada, raku, e o torno é artesanal, de qualidade excelente, sem aquele barulho de motor confinado em lata. A roda da parte inferior é de ferro, com 65 kgs, que aproveita a inércia do impulso dado pelo motor. Foi feito por um torneiro e o custo destte torno totalizou R$ 1.450,00.

sábado, 28 de junho de 2008

CERÂMICA BÁSICA EM DR ULISSES-PR











Mais um curso de cerâmica Artesanal, pelo Senar-PR. Desta vez em Dr.Ulisses, no Paraná. Lugar difícil de conseguir-se uma argila plástica para compor uma massa. Através de contato com o Mineropar, os técnicos fizeram uma análise de amostras de diversas argilas e encontrou-se uma argila com índice de plasticidade 28. Em todos os livros de cerâmica descreve-se o método de como verificar-se a plasticidade de uma argila fazendo o tradicional anel. Pega-se a amostra, amassa-se um pouco, faz-se um rolinho e coloca-se ao redor do dedo. Se não rachar é plástica. Já um laboratório, como é o caso do Mineropar, segue um teste científico. O índice de plasticidade é obtido seguindo técnicas internacionais consagradas. Então, o índice de plasticidade é a diferença entre o Limite de Liquidez (quantidade de água que a amostra pode ser misturada sem virar líquida) e o Limite de Plasticidade (quantidade de água mínima que permite a trabalhabilidade da argila). O que é muito bom e que dá segurança é o fato de que as amostras que no curso consideramos como melhores para o modelado, também o foram pelo Mineropar. Ou seja, o simples teste do rolinho é muito bom e garantido. É claro que depois vem a composição da massa, sempre naquela base de 70% de argila plástica e 30% de argila anti-plástica. Esta proporção é modificada até chegar-se a uma massa de boa trabalhabilidade.
As argilas daqui parecem meio fofas. Não tenho acesso à análise mineralógica, para comprovar a composição das argilas e saber o que ela apresenta na sua constituição para ser tão fofa ao tato. O fato é que mesmo a melhor massa não possuía boa resistência após a queima. Aqui tem ocorrência de mármore, que é um carbonato de cálcio. As argilas resultam da decomposição de feldspatos de rochas graníticas, daí resultando os argilominerais. A cidade próxima tem olaria, Cerro Azul, e até o tijolo lá fabricado é fraco, esboroa-se facilmente. A solução perfeita é importar argila de Curitiba, a 100 km, onde é notória a abundância de argilas plásticas. Aqui em Curitiba encontrei uma argila de qualidade excelente, a custo zero, e propus para o poder público municipal de Dr. Ulisses que mobilizasse um caminhão para buscar e deixar à disposição dos interessados. Uma caçamba (10 toneladas aproximadamente) é suficiente para um grupo trabalhar por mais de 5 anos.
Por isso, modelar panelas e vasos foi um desafio, tanto na modelagem direta quanto no método de rolinhos (cordelado). Outras peças não apresentaram dificuldades.
Já construí mais de 15 fornos artesanais, iguais ao da foto, e sempre venho fazendo pequenas modificações. Este último, com o pior tijolo que já usei, fraco e quebradiço, foi o que melhor funcionou. Num forno a relação entre o volume da câmara interna, a fornalha e a chaminé definem o funcionamento perfeito. A qualidade da lenha não pode ser esquecida. Madeira muito densa faz muita brasa e não dá boa chama, resultando uma queima péssima.
As pessoas não estão organizadas em Dr. Ulisses. Como em toda cidade tem pessoas são carentes e com renda baixíssima. O Desenvolvimento Sustentável é a saída para a nossa população. Temos que levar em conta o Cultural, o Social e o Ambiental para alavancar o auxílio mínimo que o povo precisa. O artesanato é uma forma simples que começa a ajudar as pessoas a buscarem uma renda, tornando-as, ainda, independentes. É claro que o Confúcio precisaria estender mais um pouco seu ditado. Ensinar a pescar hoje é insuficiente, precisamos ensinar a vender o peixe.
Aproveitei para interagir com os participantes do curso, propondo troca de plantas, mudas de orquídeas, íris, moréias, flores de maio, sementes, etc., por frutas, outras plantas. Vai daí que voltei do curso com cestada de ponkans, mandioca, flores...

Quando cheguei em casa ainda pude ver sanhaços devorando os últimos caquis da temporada.