quinta-feira, 3 de março de 2011

PREPARANDO MASSAS/PASTAS



Não tenho uma massa padrão, de trabalho, aquela que sempre faço, igual, pesada, mesmos componentes, etc. Todavia, elas são baseadas, sempre, no mesmo princípio. Quando resolvo fazer uma peça, daí é que penso na composição da massa. Se vou fazer peças para Raku/coppermate, alta temperatura, para peças que vão ao fogo direto, etc. Sempre tenho em mente o resultado final. Então, a partir disso vou compondo a massa.
Tenho um material que é a base. Uma argila muito plástica retirada de uma região próxima ao rio Iguaçu, aqui na região Metropolitana de Curtiba. Tenho algumas toneladas deste material. Sempre começo com esta argila. Sua cor de queima é avermelhada, não muito forte, acredito que contem uns 4 a 5% de ferro. Claro que quando vou queimar em baixa temperatura e quero uma coloração vermelho intensa, misturo um anti-plástico de coloração amarela, que dá o melhor resultado. A argila amarela queimada resulta vermelha, intensa.
Depois vou misturando, se quero alta temperatura, preciso adicionar caulim com alto teor de alumina, para que resista à temperatura sem deformar. Também a sílica, que aqui tenho a sericita em malha 200. Posso usar, também, uma areia fina. A sílica tem grande influencia na massa, na retração, não é recomendável usar malha 400, por exemplo. A cerâmica arqueológica está impregnada de pedaços de milímetros de sílica, que ajuda a resistir ao choque térmico, conhecimento ancestral. Para que a massa tenha boa fusibilidade, regulo a concentração de feldspato de sódio e potássio que vai ajudar, inclusive, na absorção da peça final. Uso muito o talco, que é um silicato de magnésio, material fundamental para resistir ao choque térmico. Compro na malha 200, fácil de adicionar e ainda dá um toque sedoso à massa. Aliás, para se ter intimidade com os materiais, é necessário pegá-lo na mão esfregar nos dedos e sentir a consistência. A do talco é característica a untuosidade ao tato. Aliás isso ajuda a definir o talco. A sericita é áspera, pois é sílica moída, é mais fria do que os outros materiais.Tenho argilas de diferentes procedências, argila branca, rosada, amarelas, etc. Com elas posso mudar o tom da coloração, mais clara, mais escura, mais vermelha, etc. À medida que aumentamos o número de componentes na massa, ela vai ficando cada vez melhor. Ainda tem os chamotes. Gosto de colocar chamote médio de telhas de boa qualidade, aqui compro já moída a um preço baixo.Quando queimo em alta ficam pontos pretos. Tenho chamote refratário que dá pontos claros na massa queimada tanto em alta quanto em baixa. Uso, também, chamote de quartzito que é areia com impurezas. É muito interessante. Além disso, o que aparecer de material posso adicionar: vermiculita, serragem, mineral de cobre, ferro, etc
A intimidade com os materiais é muito interessante. Saber o que é fundente, refratário, corante, resistente à temperatura, choque térmico, etc, é fundamental. Na ordem, é mais ou menos assim: Saber o que é uma argila plástica, anti-plástica, refratária, fundente, o que é um caulim, talco, feldspato, chamote, para que serve a sílica, alumina, sódio, potássio, magnésio, lítio, calcio. OLhem, praticamente é isso. Depois disso, trabalhar com os materiais.
Primeiro tenho a argila que aparece na foto, está jogada no terreno, vou usando, tenho estoque para uns 5 anos. Quebro em pedaços e coloco numa bombona. Deixo alguns dias para amolecer. Este material fica bem mole. Os outros, adiciono seco, moído. Jogo direto na maromba/amassadeira e vou, na hora, jogando a composição daquilo que já tenho separado. Veja a maromba artesanal com motor de 2 cavalos. Funciona há anos sem nenhum problema, é um jipão. Duas passadas é suficiente.A massa fica pronta em dois toques. 100 quilos tiro de letra em pouco tempo e já posso trabalhar. Posso marombar 3 vezes e daí fica super. Os chamotes grossos eu misturo depois, à mão usando o método da cara do boi. Assim também misturo outros materiais que quero inserir na massa.
Este é o método que estou usando hoje. Claro, tem o método do Bernard Leach, japonês, do Chiti, de bolsas colgantes. Misturar a úmido todos os componentes, peneirar e secar é um método bom.

4 comentários:

Nadia Saad disse...

Como sempre suas publicações são ótimas.
Generosas em informação e esclarrecedoras na prática.
Mais uma vez, parabéns!

. disse...

OI, Nadia! Teu blog também é muito enriquecedor =sadiasaadbr.blogspot.com=
Obrigado,
Gilberto.

Anônimo disse...

Oi!

Para produzir uma massa para utilitários que será queimada em alta temperatura há alguma proporção entre os materiais e argila que seja melhor? Vejo algumas "receitas", com porcentagens, etc, mas acabo sempre ficando meio perdida.
Abraço,
Moara

RONALDO HERLINGER disse...

Ronaldo Herlinger
Legal a tua aula, deu pra aprender um pouco mais.
Parabéns pela aula. Saúde