sexta-feira, 28 de novembro de 2008

DETALHES DE VIDRADOS-RAKU






Nos trabalhos em que fui selecionado para o Salão Nacional de Cerâmica, gostei muito do resultado que obtive com os vidrados de RAKU. Pelos detalhes das fotografias pode-se notar a variedades dos efeitos que consegui utilizando vidrados com belíssima rede de craquelê nos dodecaedros, como, também, sem o craquelê. O que busquei foram vidrados com altos coeficientes de dilatação e na massa coloquei materiais com menos coeficiente de dilatação. Assim, favoreci o aumento do craquelê. Nos vidrados além usar bórax, adicionei bastante sódio e potássio. Tenho pesquisado o bórax, apesar de ser solúvel, por ter um custo baixíssimo. Tenho visto que estes vidrados além disso apresentam uma variação muito interessante de efeitos inusitados e inéditos. A grande maioria dos ceramistas apenas compram seus vidrados nas lojas do ramo e vão resolvendo sua produção. O bórax é tóxico, como bem pode ser visto na literatura e exige o cuidado correspondente. Os dados de contaminação por materiais cerâmicos na literatura são escassos. Sabe-se bem o cuidado que é preciso ter com os vidrados de chumbo, os vermelhos amarelos e laranjas, de selênio e cádmio. Estou evitando usar vidrados que contenham chumbo, selênio e cádmio. Pode-se passar muito bem sem eles. A gama de vidrados alcalinos é enorme. Na alta temperatura praticamente todos os vidrados são não tóxicos. Os pigmentos de cobre, cromo, cobalto, que são os principais colorantes dos vidrados também são tóxicos. Voltamos à necessidade de sempre tomar os devidos cuidados na a produção cerâmica. Quanto à utilização de vidrados caseiros, com efeitos diferenciados, adicionei o sal de cozinha, cloreto de sódio na composição, para obter o sódio. Para o potássio, um pouco de feldspato de potássio. Na massa, aumentei o percentual de sílica para diminuir o coeficiente de dilatação. Aumentei o coeficiente de dilatão do vidrado e diminuí o da massa, dando o máximo de contraste. Além disso, ao retirar as peças do forno, deixei um minuto sem proteger com serragem, cepilho, folhas, etc, para ainda aumentar o craquelê. O resultado pode ser visto pelas fotografias.
Já os vidrados COPPER MATE exigem mais cuidado, mais trabalho. Na composição usei a que se encontra na literatura, vidrado alcalino, com óxido de cobalto, óxido de ferro vermelho e óxido de cobre. Para a redução coloquei as peças em ambientes fechados com jornal. Quando a redução é feita de forma violenta, as cores ficam mais claras.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

CURSOS DE CERÂMICA BÁSICA





Neste mes e no mes passado, ministrei duas oficinas de Cerâmica Básica, de 64 horas cada, patrocinadas pelo Senar-PR, nas cidades de Campo Magro (Região Metropolitana de Curitiba) e em Quatro Barras, no meu próprio Ateliê, no Bairro Campininha. Evidentemente que as oficinas no meu ateliê são mais fáceis de ministrar. Tenho maromba extrusora, argila plástica em toneladas, toda a infra-estrutura para produzir uma massa artesanal de boa qualidade, plástica, com adição ou não de chamote. Pesquiso as argilas de barranco das cercanias do local onde se encontra meu ateliê. Conheço inúmeras que tem coloração diferente, as quais, inclusive utilizo para pintura de paredes de alvenaria. A adição de uma argila anti-plástica extraída no próprio local de trabalho, ou próximo dele, tem uma força especial. Primeiro porque fica claro para aqueles que estão fazendo um curso, como utilizar-se de matérias-primas que estão disponíveis ao nosso redor e isso torna o aprendizado mais interessante. Argilas plásticas de grande qualidade para uso em cerâmica artesanal e artística são descartadas normalmente na região mnetropolitana de Curitiba. Estamos no primeiro planalto paranaense, ao lado da Serra do Mar, que é constituída de granito e este por quartzo, mica e feldspato, sendo o último a origem das argilas e caulins, portanto, nossa região Metropolitana tem material cerâmico em abundância. Basta estar alerta. Por exemplo, neste ano, na Avenida Maringá, em Pinhais, a Prefeitura Local estava implantando um sistema novo de galeria de águas pluviais e necessitou cavar a uma profundidade de 3 metros para colocar mais de um km de tubulações de mais de 1 metro de diâmetro. Conclusão: a argila plástica que a retroescavadeira retirava era imediatamente levada por caminhões caçamba e descartada. Nas escavações das contruções de prédios e edifícios em Curitiba também podem ser encontrados ótimas argilas plásticas para compor uma massa utilizável com resultados excelentes. Estou falando de cerâmica artesanal e artística que não representa qualquer dano para o meio ambiente. Existe hoje em dia um consenso sobre as argilas = são matérias-primas não renováveis. Assim, se, mesmo em pequena escala, estivermos usando um material que será descartado e mais, inutilizado, é muito interessante e de uma certa maneira é uma atitude ambientalista. Uma noção mínima para compor uma massa é necessária. Mas a literatura está disponível em todos os lugares e uma massa artesanal, para começar, pode ser composta com 70% de material plástico e 30% de material anti-plástico. Se passar no teste do rolinho, ou anel, já pode ser usado. Teste do Rolinho, ou do anel: misture bem a massa, faça um rolinho de aproximadamente 10 cm de comprimento e 1cm de diâmetro e entorte-o ao redor de um dedo. Se não rachar é plástico, pode ser usado para modelagem. Se rachar necessita de mais material plástico. Já falei sobre isso noutra postagem.É claro que deverá ser testado no momento de confeccionar alguma peça e depois queimar e ver sua qualidade, se serve para aquilo que se deseja. Pode ser adicionado tijolo moído e peneirado como chamote. O material anti-plástico é muito fácil de ser encontrado. É a argila mais abundante em quase todos os terrenos, barrancos, etc. Em todo lugar existe algum movimento de terra, o nosso planeta está sendo rasgado de cima a baixo e sem sua pele natural (vegetais), o material argiloso está exposto em todo parte.
As panelas estão cada vez mais sendo procuradas como produto artesanal. A confecção exige concentração e repetição de algumas panelas para fazer uma de qualidade aceitável, isso para quem nunca trabalhou anteriormente com modelado cerâmico e tem pouca habilidade com artesanato. O método mais simples é o da bola. Amassa-se corretamente o barro (técnica da cara do boi, por exemplo) e faz-se uma bola de argila, com a quantidade de barro para o tamanho da panela. Abre-se um buraco no centro e daí vai abrindo e dando o formato à panela. O dedo indicador curvado e apoiado pelo polegar é a ferramenta que abre a panela. Veja a fotografia da reportagem. A outra forma, sem o torno, é o rolinho ou cordelado. Vai sobrepondo rolinhos já com a espessura da parede da panela até a altura desejada. As tampas podem ser confeccionadas esticando uma placa e deixando secar sobre uma superfície, de preferência gêsso, em, formato de calota. Para impermeabilizar as panelas alguns métodos são adotados. No Estado do Espírito Santo é muito usado a casca da planta do mangue "Risophora mangle". Faz-se uma infusão forte e depois de tiradas as panelas da queima, esta infusão é batida nas panelas ainda quentes com ramo de plantas. No nordeste é muito usado untar as panelas na parte interior com óleo de cozinha e colocar ao sol. Esta operação é repetida umas quatro vezes. Vi no litoral do Paraná a impermeabilização sendo feita fritando com bastante óleo cascas de banana verde. Meia dúzia de cascas de bananas são suficientes. O método mais prático que achei foi fazer um refogado de cebola e alho com bastante óleo e fritar espalhando o óleo por toda a panela. Jogar fora este preparado. Após isso a panela já está pronta para uso.
As panelas dos oleiros de São José, Santa Catarina são impermeabilizadas com vidrado de sal. Esta parece-me a forma mais perfeita de impermeabilização. Mas não está ao alcance de todo ceramista artesanal paneleiro.Nas fotos panela dos Oleiros de São José-SC (amarela), panela Capixaba do Mestre Pixilô (preta) e panela confeccionada por mim, com impermeabilização com líquido da infusão de cascas com taninos de plantas locais: acácia negra e aroeira.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

SALÃO E CONGRESSO NACIONAL DE CERÂMICA




De 6 a 9 de novembro, aqui em Curitiba, aconteceu o Congresso Nacional de Cerâmica. É do mesmo porte do Contaf de São Paulo. Evento indispensável no mundo cerâmico tupiniquim. São Paulo (na Cerâmica Artística= Megume, Norma Grimberg, Ideko) e o nordeste ( na Cerâmica popular= Mestre Nado, Paneleiras de Belém, Paraíba, Caruaru, Bahia) estão presentes influenciando positivamente o desenvolvimento cerâmico Nacional. O Contaf, infelizmente, dará um tempo, até 2010, para acontecer novamente. Precisamos valorizar cada vez mais o Congresso Nacional patrocinado pelo Governo do Estado do Paraná. Além deste invenstimento, ainda tem o Salão Nacional de Cerâmica, paralelo ao evento, o único deste gênero, em Cerâmica, no Brasil, com prêmio de $7.000,00 para os três primeiros colocados em Cerâmica Artística, Design e Popular. Claro que essa grana é mínima, mas de alguma forma valoriza além do dinheiro aqueles que apresentam um trabalho de qualidade, bem como todos os demais participantes selecionados para o Salão.
O Congresso é um ponto de referência, um lugar de troca de experiências e contactos,
Fiz oficina com o Megume, cujo tema era "O Cadáver Esquisito" um jogo coletivo surrealista inventado na França em 1925. Foi uma Oficina muito bem conduzida e de grande integração entre os participantes que resultou num gran finale emocionante.
O que tenho pensado sobre o trabalho artístico é o que acredito ser a necessidade premente do Ser Humano, frente ao desenvolvimento tecnológico e a degradação acelerada do planeta. Todos os habitantes humanos do Planeta Terra precisam pensar na curta duração da sua existência e que é necessário preservar a Natureza. Não adianta um trabalho de vanguarda, contemporâneo, com conceito, poética, se ao seu lado tudo é destruído: espécies animais e vegetais são extintas. O trabalho artístico precisa conter este grito de desespero e ao mesmo tempo de esperança. O nosso lugar no Cosmos, coordenadas cósmicas, está definido. O limite do nosso mundo visível está quantificado. O homem está no ponto médio entre o macro e o microcosmo. Nossa solidão cósmica aumenta com o aumento da nossa compreensão das dimensões cosmológicas. Todavia, a Vida e o Homem continuam sendo o mistério. A desconstrução desenfreada junto com a Maldição da Tabela Periódica (não teremos descanso enquanto não separarmos todos os elementos químicos do planeta, colocando-os organizadamente cada um no seu lugar...), somado à alugação da nossa cabeça com a sobrevivência diária, tornaram a vida muito rápida e curta, com atrativos reduzidos.... E por aí afora...
Fui selecionado com duas obras para o Salão Nacional de Cerâmica. Numa delas quis sintetizar meu sentimento de oprimido pelas contingências e exigências do dia a dia. São as Balas de Canhão = a vertigem do cotidiano conduzido para o nada, tangido pela força disfarçada dos mais fortes. A obra carece de força, necessita mais poesia, quero desenvolver melhor este tema. Perseguir mais essa idéia, ir mais longe, colocar mais coisas. O título foi inspirado no Riobaldo Tatarana do Guimarães Rosa "... no meio do redemunho!"
A outra obra, chamada Dodecatoplatonis são dodecaedros empilhados, que somados mede 1,55m de altura. A queima é de Raku, com bastante sódio na formulação do vidrado para aumentar o c`raquelê. São todos vidrados formulados para estas peças.

sábado, 4 de outubro de 2008

TRABALHANDO EM CASA-PRIMAVERA




Dei um tempo na correria de aulas e cursos. Nesta duas semanas ficarei em casa, dedicando-me ao meu trabalho próprio de produção cerâmica.Voltei ao torno depois de mais de um mês afastado. Preparei uma massa com chamote fino, talco e um anti-plástico de argila de cor vermelha intensa. A argila plástica é a mesma de sempre, das margens do Rio Iguaçu, 15 toneladas que comprei há poucos anos. Quero queimá-las na técnica RAKU. A massa ficou fina, gostosa de tornear. Estou produzindo vasos com biquinhos, nos quais procuro formas novas, mais aqueles que me inspiro no Hans Coopper, etc, etc. Nunca tenho um plano totalmente definido do que vou fazer. Quando ergo a peça é que realmente decido. Grande parte já sei como completar, mas, no meio do caminho é que realmente procuro uma forma de finalizar. Posso mudar de repente de idéia. A meta nunca é encarada como linha de produção. Sempre estou procurando aquela forma nunca feita. No torno não é fácil inovar. Tem aqueles formatos que a gente gosta, com as quais mais se identifica e que depois de vidradas completarão aquilo que queremos. Estou cada vez mais concentrando-me em vidrados mais rústicos. Mesmo nas queimas de raku. O craquelê está ficando cada vez mais intenso e agora estou trabalhando para aumentar ou diminuir o tamanho da rede de craquelê. São alguns conhecimentos que se vão adquirindo, mais os macetes práticos da queima. Uso até sal de cozinha, cloreto de sódio, para adicionar sódio, que aumenta o coeficiente de dilatão e favorece o craquelê. O borax, que é baratíssimo se comparado com a colemanita, adiciono para compor um vidrado transparente. É claro que o bórax, por ser solúvel, é chato de trabalhar e não dá para guardar as soluções que sobram, pois elas cristalizam, necessitando serem moídas para serem reusadas. Mão-de-obra! O bórax diminui o coeficiente de dilatação, funcionando ao contrário do Sódio, Potássio e Lítio.
Nas queimas de RAKU também tem o problema da forma. Formas mais fechadas, vasos com gargalos, bicos estreitos, resistem mais ao choque térmico do que pratos, ou formatos abertos.
Enquanto isso, estamos em plena primavera. Tenho muitas espécies de flores aqui na minha casa. A glicínia encheu de rendas as laterais da casa, agora restam poucas. As gabirobeiras deram floração intensa, prenunciando boa produção de gabirobas, com as quais faço geléia e mais uma deliciosa gabirobada cascão, o que é incomum. Sorte não ter geado tardiamente, o que diminui sobremaneira a produção de frutas. Tenho grande quantidade de dendróbios (orquídeas) espalhadas pelas árvores da chácara. Já cataloguei 16 espécies nativas de orquídeas aqui no meu espaço. Plantei, também, uma boa quantidade de frutíferas. O nosso clima aqui na latitude 25 graus e 1000 metros de altitude as espécies tropicais não vingam. Mas uva, pêssegos, caquis, maçãs, ameixas, nêsperas, kiwi, cítricos, amoras, peras, figos, etc, dão em abundância. Faço muitas geléias, com as amoras chilenas e uvas faço sucos. Desta última engarrafo uma boa quantidade para consumo durante o ano. A maior parte das amoras congelo no freezer para ter sempre fresquinhas, suco direto, misturado com água. Estou curtindo plantar physalis (Physalis angulata -uma solanácea com fruta amarela de 2 cm de diâmetro, aproximadamente), e rosella (p/ chá, suco com limão e geléia).
As aves também estão com a movimentação típica da primavera. Saíram daquele movimento calmo do inverno e os casais andam atarefados na construção de ninhos. No meu ateliê flagrei algumas baitacas comendo a tábua do beiral para cavar uma entrada = ninho. Andorinhas também buscam os beirais, mais os canarinhos da terra e as corruíras. Estas começam a cantar cedinho e é um prazer escutá-las. A manhã começa com os sabiás. Aqui tem o sabiá de peito vermelho, peito branco, coleira e o sabiá preto, chamado sabiá poca. Este último começa a cantar somente lá pelo mês de janeiro, aqui em casa, quando as outras espécies de sabiás já estão parando. Quando lembro da minha infância, sempre tem um sabiá laranjeira cantando. Dentro de um bote, descendo à camalote (como dizem os paraguaios=rio abaixo sem remar, ao sabor da corrente, Rio do Peixe, oeste de Santa Catarina). Ficava triste quando lá pelo mês de fevereiro diminuía o canto dos sabiás e aguardava a chegada da primavera para ouví-los novamente. Mas em fevereiro começavam os ariticus (araticus).Meu pai, expert em aves canoras, chamava a atenção para a variação dos cantos das diversas aves. O curió, azulão, canário da terra, pintassilgo, cardeal, coleirinha e, é claro, os sabiás. Destes o coleira era o seu preferido. Repetindo o grande ceramista, em sua carta pro Bernard Leach (citado em A Potter's Book), Shoji Hamada, "quando vejo as cerejeiras em flor, sinto que a cada ano a primavera vai entrando cada vez mais dentro de mim".

terça-feira, 30 de setembro de 2008

SENAR-CERÂMICA - Piaçaguera-Paranaguá-PR





Fui a Piaçaguera, na Baía de Paranaguá, ministrar o curso de Cerâmica Básica do Senar-PR. Lugar de grande beleza cênica, de frente prá parte leste da Baía de Paranaguá, com vegetação de mata Atlantica ainda densa e praticamente intocada. As árvores sãolotadas de bromélias, em alguns lugares o chão também. Muitas orquídeas e aquela abundância de vegetação densa com uma variedade que faz a mata Atlântica ser conhecida como a floresta de maior diobiversidade do planeta. Não esqueçamos que estamos na maior faixa contínua remanescente da Mata Atlântica. Só que é uma merreca, se comparada ao que foi devastado(sobraram 6%). Todavia esse pinguinho de mato ainda aí está, resistindo ao ataque desenfreado da nossa onívora civilização, por enquanto.
Nos primeiros quatro dias de curso em Piaçaguera pude perceber a necessidade que tem o nosso belo povo caiçara de substituir o seu modo de sobrevivência. Antigamente a pesca supria as necessidades. Mas, agora, dentro da baía, em frente ao porto de Paranaguá, os peixes minguaram, os plásticos nadam em cardumes e os biguás voam de lá prá cá, tentando desesperadamente identificar qualquer movimento de peixes. O artesanato local com cipós é muito bom. A cerâmica artesanal,por ser uma atividade que não agride o meio ambiente, é uma grande forma de sobrevivência que deve ser incentivada.
Voltei para completar o curso com ânimo total, tentando ensinar e aprender com este povo, oprimido e não recompensado pelo que está perdendo de cultura e dinheiro com esvaziamento das suas fontes de sobrevivência e pela opressão que também sofre pelos meios de comunicação. Uma enxurrada de produtos de péssima qualidade (tem em qualquer supermercado de qualquer cidade = conservantes, aromatizantes, corantes, flavorizantes, margarinas, açúcar, enlatados, embutidos, etc, etc.) para substituir a saudável comida retirada antigamente do mar, só vem completar o quadro.
São 8 dias de curso. É muito pouco! Estou tentando ampliar o curso, com acompanhamento, para que a inciativa que é muito bem recebida seja incentivada e aperfeiçoada. A cerâmica não se aprende rapidamente, salvo raras excessões. Precisa de muito treino e acompanhamento, até que seja aperfeiçoada. Construí o forno cerâmico artesanal, cuja queima saiu perfeita, como pode ser observado pela foto.
Para procurar argila com a finalidade de compor massa cerâmica, fomos pela praia. Na volta, por trilha no mato. Para quem mora em Curitiba, sem mar, é fantástico caminhar numa praia com vista ampla, panorâmica.
A Baía de Paranaguá tem tradição cerâmica. A Ceramista Senhorinha, da Ilha de Medeiros, deixou escola, muito embora quase só na lembrança. Consegui um vídeo com depoimento da Sinhorinha que deixei para os moradores de Piaçaguera. Este trabalho da Sinhorinha era uma tradição aprendida de seus antepassados indígenas. Usava queima direta colocando as peças no meio dos galhos secos de lenhas. A queima não durava mais que uma hora. Sinhorinha tinha grande habilidade, modelava todos os tipos de utilitários (vasos, panelas, jarros, etc), a maioria desenvolvidas por ela mesma, sozinha. Era ajudada pelo marido nas tarefas mais pesadas, como ir buscar o barro e fazer o fogo. Interessante que usava a velha proporção básica, 70% de matéria-prima plástica e 30% de anti-plástica, para compor a massa resistente à essa queima direta. Existe ainda muitas peças dela espalhadas pela baía, mas não restaram ceramistas. Acredito que assim que começarem a surgir centros de produção nas ilhas, este artesanato ressurgirá com força total.

sábado, 20 de setembro de 2008

VIVÊNCIA-FERACOMCIÊNCIA- R A K U


Mês de setembro e agora de outubro está sendo de muita correria. Ministrei várias oficinas de Raku. Primeiro a Vivência aqui no meu ateliê. Fantástica, com 11 participantes. Criou um clima muito bom, as pessoas mostraram grande interesse e o resultado apareceu, apesar de ser apenas um dia. Mas, sendo uma Vivência, o bom é o dia agradável, tranquilo, com boa onda e comida deliciosa. Assim foi. Ao saírem da Vivência as pessoas combinaram encontrar-se noutro dia para leros leros, tangos e boleros. Com essa mesma turma acabei indo assistir a um show de música italiana com um gancho na música brasileira, promovido pelo Consulado da Italia, chamado "A Vida é a Arte do Encontro". Foi organizado pela italiana Elvira, do Consulado, uma participante da Oficina. O título é sugestivo para continuação da Vivência.
Participei do Projeto Paraná em Ação, em Curitiba, ministrando 2 oficinas de Raku por dia, durante 6 dias. 12 queimas. Era para os alunos das escolas públicas Curitibanas e o povo que estava visitando o local e aproveitava para conhecer a queima de Raku e já participava passando um vidrado numa peça que estava à disposição, previamente biscoitada. Até os garis que faziam a limpeza da praça aproveitaram o momento e fizeram uma peça cada um que depois levaram para suas casas. Enquanto a queima estava acontecendo eles voltaram ao trabalho, retornando para a abertura do forno e limpeza das cerâmicas, resfriadas no ato, como acontece nesse tipo de queima. Foi interessante, o povo, alunos, as pessoas que participavam do próprio projeto, em frente ao Palacio do Governo, vieram conhecer a técnica e levar o resultado embora. O Raku realmente é uma forma alegre de trabalho cerâmico, muito rápido, eficiente e mesmo para pessoas que nunca tiveram experiência anterior de cerâmica o resultado é sempre positivo.

Participei, também, do Projeto Fera Comciência, da Secretaria Estadual de Educação, em Curitiba. O tema deste ano é a comemoração dos 100 anos a imigração japonesa. Aí é que o Raku se encaixa, como também nas oficinas anteriores. Técnica cerâmica de origem coreana e desenvolvida no Japão onde é usada desde o século XVI. O Projeto Fera Comciência é fantástico que não pode perder sua energia, pela grande quantidade de informações que os alunos da rede pública recebem e que são inesquecíveis para eles, pois nossa população que não tem condições de frequentar as escolas particulares também não tem condiçòes de frequentar nada. Só o fato de participarem de um evento artístico-científico já é inesquecível. A oficina era a mesma do Paraná em Ação, somente que para professores da rede pública. Foi muito interessante porque participaram professores de química, biologia e artes. A técnica de Raku é muito ilustrativa no caso da química, onde presenciamos visualmente um caso clássico de reação química de óxido-redução. Costumo ilustrar essa reação química com o pigmento óxido de cobre que é um verde usado nos vidrados. Quando se observa um fio de luz de cobre, que é vermelho, oxidado, aparece uma película esverdeada, é o óxido de cobre. Nos tachos de cobre também a oxidação deixa uma mancha verde que popularmente é conhecida como zinabre. Não confundir com cinábrio que é o mineral sulfeto de mercúrio. Bem, quando o óxido de cobre é misturado num vidrado transparente o resultado, após a queima, é a cor verde ou turqueza, dependendo da qualidade do vidrado (base plúmbica ou alcalina). Como a técnica de Raku usada no ocidente é um pouco diferente, criada pelo americano Paul Soldner, temos um sincretismo cerâmico nipo/ocidental. Lá a peça cerâmica quando,dentro do forno, atinge a temperatura de 1000 graus centígrados, é sacada para fora do forno e imersa nágua, para resfriamento imediato. Paul Soldner resolveu colocar primeiro na serragem, onde acontece uma redução forçada.Aí ocorre a redução química. A serragem, matéria orgânica, devido à alta temperatura, queima imediatamente, todavia, para a sua combustão necessita de oxigênio. Como no meio da serragem tem pouco oxigênio e a tampa do recipiente costuma-se fechar para melhor redução e ainda evitar a fumaça da queima, a serragem retira o oxigênio do óxido de cobre, transformando-o em cobre metálico de cor vermelha. O vidrado que seria verde torna-se vermelho. Exemplo claro, fácil de compreender. Possivelmente algum professor utilizará este processo para ilustrar sua aula, principalmente porque a química é encarada como uma matéria muito chata de difícil compreensão. Para os professores de arte o resultado final da queima é bonito e admirado.
Os vidrados Sangue de Boi, Celadon e Temoku, clássicos vidrados japoneses, também são obtidos com redução, só que a redução ocorre dentro do próprio forno e em alta temperatura, acima de 1250 graus centígrados.
Foram dias corridos, mas gratificantes...

domingo, 10 de agosto de 2008

VIVÊNCIA - RAKU E COPPER MATE-SALÃO










Algumas vezes por ano, abro meu espaço de trabalho para oficinas de Raku. Chamo de Vivência.Vivência porque o enfoque vai além da Cerâmica. É um dia de cerâmica que os interessados podem vivenciar. Apresento três peças já previamente torneadas e biscoitadas para que cada participante, no máximo 15, pinte. Depois é queimado, num forno próprio, retirado do forno a 980 graus centígrados e colocado na serragem para a redução química. Esta técnica foi inventada pelos coreanos, eternizada pelos japoneses e popularizada pelo americano Paul Soldner. A oficina começa às 9horas da manhã e termina às 17 horas. O almoço, bem como o lanche de encerramento é preparado pela minha companheira Beatriz, expert em culinária, com enfoque naturalista e com opção para vegetarianos. No dia 23 de agosto farei uma dessas oficinas = Raku e Copper Mate. Custo por pessoa = R$ 120,00. Quem se interessar, passe um e-mail para maiores detalhes.
No meu espaço de trabalho tenho o maior cuidado com a Natureza. Moro numa chácara, onde 50 % é área de Preservação. Meu ateliê está cercado de árvores.
Acho que não se pode separar a vida do trabalho. Por isso, durante anos batalhei para poder realizar aquilo em que acredito: trabalhar de forma independente, associar minha vida profissional à minha própria vida. Ao separar minha vida do meu trabalho uma parte de mim fica perdida, dissociada. Assim,viver de forma independente, tentando não dar força a essa corrente de desenvolvimento que está levando nosso planeta à falência múltipla, preservar o meio ambiente, fazer proselitismo ambiental, tomar atitudes mínimas que ajudem as pessoas menos favorecidas, não julgar os outros pelo seu poder financeiro, não dar importância para a sofisticação da aparência, tentar olhar o ambiente que me cerca, ter compaixão pelos outros, agradecer à vida, à saúde, é a minha meta.
Evidentemente que necessitamos de dinheiro, muito dinheiro! A cultura é caríssima, os livros têm preços absurdos, viajar é uma nota preta, pagar por bons cursos é necessário. O tempo também está muito rápido (efeito Schumann). Vejo as pessoas dizendo sempre isso, que não tem tempo, que não conseguem dar conta dos compromissos, que a vida se esvai mais rapidamente do que o crédito do celular. Então, todos têm sua charada particular. Precisamos matá-la para sobreviver de forma digna, satisfatória.
Todavia, ainda sobra um tempinho para alguma coisa. Agora neste final de julho, começo de agosto, em pleno inverno, aqui no meu ateliê, a cerejeira do Japão, Sakura, numa belíssima e intensa floração, transportou-me para a carta que Shoji Hamada escreveu para Bernard Leach, na década de 30 do século passado, que este reproduz no seu livro “O livro do Ceramista”: “...a cada ano ao contemplar as cerejeiras em flor, sinto que a primavera vai entrando cada vez mais dentro de mim...” Um bando de baitacas (família dos psitacídeos), umas 30, vivendo mais intensamente, aproveitou para saborear as flores da cerejeira. Um belíssimo espetáculo que reparto com vocês na foto acima.
Estou também, neste mês, preparando-me para o Salão de Cerâmica que acontece aqui em Curitiba, juntamente com o Congresso Nacional de Cerâmica. Trabalho algumas peças onde tento colocar minha visão da cerâmica e a minha visão das coisas que me cercam. Como posso expressar todo o sentimento que me impele a seguir adiante na vida e ao mesmo tempo colocar a minha tristeza por compreender que o ser humano socialmente está numa escalada insana, a população mundial sem qualquer possibilidade de controle, as mudanças climáticas já instaladas no planeta, o desenvolvimento tecnológico perscrutando o Universo mostrando maravilhas que somente as gerações atuais estão podendo ver, a Ciência em toda sua plenitude de desenvolvimento, são algumas das emoções contraditórios atuais. Como expressar esta alegria e ansiedade que sinto? Somado a isso, o meu conhecimento cerâmico e habilidade que desenvolvi até o presente.