domingo, 20 de setembro de 2009

PIRAQUARA - RETORNO-Cerâmica Básica




Ao voltar para a segunda etapa de quatro dias do curso de cerâmica Básica que ministro, sempre fico surpreendido como as pessoas evoluem. Quase todas começaram sem terem experiência anterior. Primeiro conhecer uma massa cerâmica e ser iniciado nas técnicas básicas. Então criar a intimidade com o modelado. Aperfeiçoar. Mesmo aqueles que relutam a princípio, acreditando que não tem habilidades, aos poucos vão aprendendendo. Quando alguém começa a sentir-se desassossegado por não conseguir modelar uma forma mais definida, deixo que tente mais um pouco, para sofrear o nervosismo e a angústia de não poder expressar-me como gostaria rapidamente. Normalmente as pessoas que tem pressão alta querem executar uma tarefa em pouco tempo, finalizar em três toques e já partir para uma nova peça. É um desafio. Neste caso, quando vejo que o resultado está indo para um caminho de insatisfação com o curso pela ansiedade de não conseguir resultado satisfatório e que levará possivelmente à desistência, mudo a forma de aprendizado. Recomeço por um modelado com técnica. Assim, para mostrar como modelar um objeto utilitário rápido, com bom resultado, independente de habilidades mais sofisticadas, sugiro recomeçar por algo mais simples, como um porta-sabonete, por exemplo. Ensino a técnica de esticar uma placa com cano de PVC 5cm de diâmetro, com suportes laterais para definir a altura da placa. Depois cato pelas cercanias uma folha que tenha um formato que sirva para uma saboneteira. Então pressiono a folha sobre a placa,com o rolo, ainda usando os suportes lateiras, praticamente enterrando a folha na placa cerâmica. Cuido sempre para que seja uma folha com boas nervuras, mas que a central não seja saliente demais, o que enfraqueceria a saboneteira, pois ultrapassaria a espessura ideal, deixando uma linha mais frágil que facilita uma rachadura. Depois de prensada, faço o recorte e retiro a folha. Então, para dar a forma na folha, coloco-a sobre uma madeira. Começo a elevar as laterais dando o formato à saboneteira e apoio sobre pedaços de jornal amassado para que sequem com o formato desejado. Cuido sempre para que esse formato seja o mais natural possível, dando curvas e graciosidade à saboneteira. Depois de secar o suficiente para que possa auto-sustentar-se, faço os furos para escorrer a água quando estiver funcionando e coloco os pés, quase sempre em número de 4, que fica mais estável. Assim já entra mais duas técnicas, primeiro como esticar uma placa e depois como colar uma peça cerâmica na outra. Sempre que é viável, misturo um pouco de silicato de sódio na cola. Porque o silicato de sódio sendo um desfloculante permite que a cola seja mais consistente. Isto quer dizer que, com menos água, eu faço uma cola que resulta mais eficiente. Depois de seco o acabamento é com lixa e finalmente uma esponja úmida completa a operação. O resultado sempre é bom. A naturalidade de uma folha que se observa na Natureza é o modelo. Assim o olhar começa a se desenvolver, para conseguir sair do modelado manual e entrar no modelado visual. Primeiro as mãos modelam, depois os olhos... Talvez essa seja a parte mais difícil para as pessoas comuns que tentam iniciar uma atividade artística. As mudanças de olhar necessárias vão mexer com o indivídio, seus paradigmas, o valetão do seu cotidiano. Isso incomoda a princípio porque é difícil, mas, depois, vem a satisfação, o prazer de estar aprendendo algo novo.
Neste forno que construí deixei que ele ficasse, por insistência do responsável pelo lugar, diretamente encima do cimento do piso. Normalmente quando acontece o caso de ter de construir um forno em situação semelhante, eu faço uma carreira de tijolos, encho de terra e soco bem. Depois começo a construir o forno. Assim, quando boto fogo no forno fica sobre terra, que é o ideal. Mas desta vez, sobre cimento, como ainda não fiz a queima, por falta de lenha, vamos ver no que vai dar. Possivelmente o cimento vai rachar, mas não passará disso.
Piraquara está encostada na Serra do Mar, uma situação privilegiada em termos de Natureza. Todavia, em menos de 15 anos a população dobrou de 100 para 200 mil habitantes. Isso transtorna qualquer lugar. É impossível comandar e organizar o crescimento com essa avalanche de seres humanos. Por isso Piraquara precisa de uma atenção especial para não detonar a belíssima Serra do Mar, tornando-se mais uma cidade inflacionada como dormitório de uma metrópole, no caso Curitiba. É um pouco triste ver as cidades em pouco tempo crescerem assustadoramente, descontroladamente, e saber que quem paga a conta é qualidade de vida de seus habitantes, ou seja, dos mais pobres, que vai piorando cada vez mais.

domingo, 6 de setembro de 2009

Cerâmica Básica - Piraquara-PR


Nesta semana iniciei um mcurso de Cerâmica Básica em Piraquara, patrocinado pelo Senar. Novamente, procurando argilas locais para composição de uma massa básica. Primeiro busquei uma argila plástica, depois mesclei com outra anti-plástica e mais um pouco (10 a 20%) de chamote de tijolo. Este chamote de tijolo é simplesmente tijolo moído à marteladas ou pedradas e posteriormente peneirado em malha mais ou menos 20. Esta adição de chamote é essencial para massas desconhecidas. Se bem que junto com a preparação das massas, faço uma placa teste e depois vejo o resultado. Esta placa teste é para ver a retração de secado e queima, bem como entornamento e resistência à quebra (flexão). O chamote ajuda na secagem, no entortamente, e o resultado ainda pode ser melhor até em resistência. O chamote e um pouco de areia fina, de rio, 5 a 10%, melhoram as massas que uso para confeccionar panelas. Peneiro e malha 20 - 25 estes materiais anti-plásticos. Até porque peneiras com estas malhas podem ser encontradas em casas de materiais de construção. As panelas para poderem resistir ao choque térmico precisam do chamote e da areia. É claro que a adição de 15 a 20% de talco (Silicato de Magnésio) é o que dá o melhor resultado. O talco é o produto por excelência para resistência ao choque térmico.
Ensino também as técnicas básicas para produção cerâmica: placas, rolinhos, modelado livre, como colar a cerâmica,etc. Todavia, quase nunco sigo uma norma rígida para as aulas. Vou vendo o estágio e grau de interesse de cada um e dando uma assistência direta, individual e quando surge algo que aos demais tem valor, repasso para todos no mesmo momento. Depois de alguns anos dando aulas descobre-se um método especial particular e que satisfaz ao educador, acredito. Penso que cada pessoa tem sua forma de melhor se expressar e isso dá resultados mais concretos quando se encontra este caminho.
O forno artesanal que inventei baseado em modelos que pesquisei tanto em literatura quando na prática nas cercanias de Curitiba, principalmente, tem funcionado perfeitamente. Algumas melhorias fui implementando ao longo das construçõs e hoje, quando já construí mais de 20, posso responder com certeza de que ele tem um bom funcionamento e é baratíssimo. Podem ser de tijolos comuns de 2, 4, 6 furos, maciços, refratários, isolantes. Com todos eles já construí. Todos funcionam. Vou adaptando para o tipo de tijolo que se encontra na região ou na cidade em que vou construir o forno.Sigo um modelo de volume interno de mais ou menos um cubo, com tiragem direta. O arco romano para a abóboda é muito simples e a zimbra (armação para construir o arco) é muito fácil de ser feita. Como melhorias, que fui aprendendo ao longo do tempo, a primeira delas foi uma abertura na parte posterior do forno, junto ao chão, que funciona como uma entrada de ar, no pique final de queima das peças, pois alí este ar complementar é fundamental para uma boa combustão. Outra que achei excelente foi transformar os burados dos tijolos do arco da fornalha como entrada de ar. Eu não coloco massa tapando os buracos, mas deixo-os livres e quando a cinza vai acumulando devido ao tempo de queima ( 9 horas normalmente), esta entrada é valiosa. Além disso, costumo colocar, como última camada de revestimento, a mesma massa que uso para rejunte que é de 50% de argila plástica e 50% de anti-plástica, complementada com uns 30% de areia de rio, peneirada em malha 20. Depois, finalizo colocando capim junto com esta última camada. O capim serve para estruturar e impede as rachaduras. Todavia, se elas aparecerem, pode-se fazer o conserto completando com masssa essas rachaduras que porventura aparecerem.
No mais, é uma mão-de-obra, em apenas 4 dias buscar argila, compor uma massa, ensinar as técnicas básicas e ainda construir um forno. O tempo é escasso. O que vale é o interesse das pessoas e se o aprendizado está valendo para alguma coisa e não apenas umas pelotas de barro apertadas e alisadas para matar o tempo. O que compensa, realmente, é o aproveitamento do curso, não o que se ganha financeiramente. Daqui a uma semana voltarei para completar o curso com a queima e aperfeiçoamento das técnicas.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

VIVÊNCIA PORANGABA - RAKU






VIVÊNCIA PORANGABA
RAKU E COPPER MATE


ESTOU CONVIDANDO VOCÊ PARA UMA VIVÊNCIA/OFICINA DE RAKU, NO MEU ATELIÊ DE CERÂMICA, NO SÁBADO, DIA 19 de setembro DE 2009.

O QUE É A VIVÊNCIA PORANGABA?
É um acontecimento cerâmico, prático, que acontece no Sítio Porangaba, em Quatro Barras, num ateliê cercado pela Natureza. Serão 3 queimas de peças cerâmicas usando a técnica de Raku. O Raku tem sido traduzido como Simplicidade, Facilidade, até Felicidade. Não exige conhecimento cerâmico anterior. A Vivência começa às 9 horas da manhã. O almoço será servido ao meio dia, com enfoque Naturalista e opção para vegetarianos. Às 17 horas será serviço um lanche de encerramento.

COMO ACONTECE?
Cada participante recebe 3 peças (pode levar alguma peça própria, desde que não seja muito grande), previamente biscoitadas, as quais eu mesmo torneei e biscoitei. Apresento uma série de vidrados, alguns prontos e outros que serão preparados na hora. Cada um decora com vidrado suas peças, uma por vez, que em seguida é queimada. Com os resultados obtidos, vamos para a segunda queima e depois para a terceira. A cada queima o participante aprimora seus resultados.
CUSTO POR PESSOA
O valor individual é de R$ 120,00, a ser pago no dia da oficina.

CONFIRMAÇÃO:
A presença deverá ser confirmada até dia 16 de setembro, uma semana antes do evento. O número máximo de participantes é de 13 pessoas.
Quem quiser participar deverá inscrever-se pelo telefone 41.91452884 ou pelo e-mail= gpnarciso@hotmail.com . Nesta ocasião será fornecido um mapa de acesso.
ENDEREÇO:
Estrada da Graciosa, 6609 – Bairro Campininha – Quatro Barras – PR
GILBERTO NARCISO – Ceramista e Eng. Químico

terça-feira, 28 de julho de 2009

CERÂMICA GUARAQUEÇABA-2a.parte







Retornei a Guaraqueçaba para completar o curso de Cerâmica Básica. São oito dias em duas etapas. Nesta segunda etapa construí o forno artisanal para queima de biscoito, com temperatura maxima entre 800 a 900 graus centígrados. Para efetivar essa construção conto com a ajuda de todos, do contrario não teria sentido até porque é uma atividade super importante a construção e conhecer como se constroi um forno. Principalmente este forno que é feito de tijolos e argila preparada com um antiplástico, sendo que na cobertura final, para suportar melhor as intempéries cubro com uma massa autofraguante. O tempo estava chuvoso nesta segunda etapa. O ultimo dia foi de chuva forte e, com vento sul, frio. Mas eu gosto de frio e de chuva também, não tem mau tempo.
Sempre na segunda etapa do curso eu percebo melhor o que está acontecendo com as pessoas que participam, sua forma de trabalhar, seu grau de conhecimento e qualidade técnica.
Em Guaraqueçaba, como em todas as comunidades que conheci, com excessão da comunidade Quilombola João Surá em Adrianópolis, há um desafio permanente de convívio entre as pessoas em direção a um objetivo comum. É dificil conseguir uma união total entre as pessoas. Mas acho que, no balanço geral a Cooperativa de Guaraqueçaba está caminhando para uma melhoria. Aos poucos alguns trabalhos tem melhorado. A cerâmica está precisando de um acompanhamento técnico em várias setores da cerâmica artesanal. Primeiro porque, sendo uma comunidade isolada, não tem como as pessoas fazerem cursos de aperfeiçoamento facilmente. Precisam vir a Curitiba ou ir a Sampa o que é mais difícil ainda. Para fazer um diagnóstico , quando se tem mais acesso ao conhecimento, torna-se mais fácil. São duas partes: a técnica e a artística. Na parte técnica, por exemplo, formas de gesso para fundição em cerâmica simplificaria muito, trabalho. A serigrafia com trabalhos fotográficos ou mesmo mesmo decolcomanias, vidrados mais baratos, como, por exemplo, de argilas, cinzas, feldspatos, etc. O acabamento é o nó górdio da maioria da cerâmica popular, principalmente quando existe um trabalho a ser desenvolvido e isso, às vezes, demora uma geração. Não dá para enganar o rústico com o mal feito, por isso, o capricho, o acabamento é essencial. Nisso eu vejo que as pessoas estão melhorando. Porém, um investimento com mão de obra qualificada para ajudar a superar etapas simplificaria o resultado.
Na parte artística, precisaria ser feito um amplo estudo das características locais, para desenvolver um artesanato com as impressões da cultura que aí se desenvolveu e a presente. Depois criar esse artesanato, incorporá-lo ao fazer artístico.
Mas a Cooperativa está encontrando seu caminho, indo atrás de verbas que possam ser direcionadas para esses quesitos.
Sempre levo comigo muitos livros, alguns dvds sobre cerâmica que ajudam a compreender o que está ac ontecendo em outros lugares, para que se coloquem todos em pé de igualdade.
Tem talentos, como de resto em toda parte, que podem e estão sendo aproveitados e é um prazer dar aulas onde as pessoas fiquem interessadas e executem trabalhos com vontade e o resultado aparece.
Aparecem na foto umas peças de cerâmica pequenas. São chumbeiros. Chumbeiros são pesos para serem colocados em redes de pesca. Antes da disseminação das chumbadas de chumbo mesmo, tão fáceis de serem adquiridas, os chumbeiros eram confeccionados de cerâmica. Estes das fotos foram modelados por pescadores e cada um tem sua função e sua forma de adaptar na rede para uso. Foi interessante a observação de um filho de pescador, que tinha visto seu pai confeccionar estes chumbeiros e queimá-los em forno artesanal, próprio para a queima cerâmica. Ele, sabendo que na cooperativa estam tendo problemas de entornamento e rachaduras nas peças, perguntou se usavam areia na massa. A areia, como um dos principais anti-plásticos cerâmicos, que ajuda a não rachar, entornar e melhora a secagem, era o material adicionado à argila para compor a massa dos chumbeiros
Na outra foto vemos a Iolanda, artesã de Guaraqueçaba, modelando suas figuras expressivas e já premiadas.
Tenho particular carinho pela Cooperativa de Guaraqueçaba, pelas pessoas, e me esforço para repassar tudo o que conheço de forma honesta e sincera.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

CERAMICA BASICA EM GUARAQUECABA-PR




CERÂMICA EM GUARAQUEÇABA



Voltei, depois de alguns anos, a Guaraqueçaba para dar um curso de Cerâmica Básica, na Cooperativa dos Artesãos. A sede, à beira mar, é de primeira qualidade, construída pelo Governo do Paraná. Há 5 anos atrás comecei a dar os primeiros cursos de cerâmica que aqui não existia, a não ser em tradição, já perdida. Guaraqueçaba é um município situado dentro da Baía de Paranguá, na parte norte. É um dos municípios mais antigos do Estado. A tradição cerâmica existiu ha algum tempo atrás, principalmente pela Sinhorinha, conhecida ceramista, da Ilha dos Medeiros. Sobre ela foi feito um video, quando em vida, que corre por aí e eu possuo uma cópia.
Voltando à Cooperativa, estava curioso para saber como desenrolaram os trabalhos dos associados, depois de todo esse tempo e sentia necessidade, inclusive, de saber se tinha gerado frutos permanentes. Alguns ceramistas populares daqui foram premiados nos três últimos Salões de Cerâmica de Curitiba. Neste trabalho de Geração de Renda, com patrocínio do Estado, e agora pelo Senar-PR, nem sempre é compensador. Depois de ir num lugar, dedicar-se, tentar chamar as pessoas para desenvolver um trabalho de independência, se não houver continuidade , acompanhamento durante um tempo mínimo, a idéia morre e a foirça perde o ímpeto.
Guaraqueçaba é uma cidade muito bonita, charmosa, situada num ponto geográfico estratégico da baía de Paranaguá. Sempre gostei daqui. Desde sempre.
Na Cooperativa são desenvolvidos vários trabalhos: cestaria, papéis artesanais, utilitários de Madeira, trabalhos de cestaria e Madeira feito pelos índios guaranis , artesanato com conchas são vendidos na loja. Além da cerâmica, é claro. A cerâmica tem todos os equipamentos necessários para desenvolver uma certâmica de excelência. Forno de alta temperatura, elétrico, maromba extrusora de grande potência, plaqueira, torno cerâmico elétrico, dois tornos de pedal, e um espaço muito grande para uso e abuso.
A cerâmica necessita continuidade. O modelado, o acabamento não se aprende rapidamente. Necessita estudo, aprendizado continuado. Percebo que depois de muitos anos estudando cerâmica, mesmo sendo Engenheiro Químico, ainda encontro tantas coisas a aprender que vejo diversão para resto da vida e ainda deixar incompleto tudo o mais que eu gostaria de aprender.
Vou construir um forno à lenha de baixa temperatura para queima de biscoito, iguais àqueles que construí noutras comunidades e que funciona de forma perfeita. Percebo que a sobrevivência de cooperativados, associados, artesãos, necessita de um aperfeiçoamento constante e uma visao de Mercado, um pouco simples, mas objetiva. Qual é o artesanato que melhor vende? Acredito que a personalidade do ceramista é o que mais conta. Tem que existir o Mercado consumidor, evidentemente, mas aqui tem. Os turistas aqui afluem e é preciso saber o que vai agradá-los e produzir com qualidade. Panelas, cinzeiros, porta guardanapos, vasos, travessas, pequenas esculturas, luminárias, bijuterias, são , basicamente, os produtos.
O que se precisa melhorar e trabalhar bastante é o acabamento, não confundir o rústico com o mal feito é o lema. É nisso que estou batalhando na Cooperativa.
Voltarei daqui a 8 dias para completar o curso.

sábado, 13 de junho de 2009

CERAMICA E MEIO AMBIENTE






Neste final do mês de maio e começo de junho, com 3 dias seguidos de geada e a temperatura chegando a menos 4 graus negativos, voltamos a sentir um pouco de frio.
Friozinho passageiro, porque aqui no paralelo 25, hemisfério sul, já foram comuns geadas sucessivas e semanas de frio de congelar a ponta do nariz.
As plantas frutíferas e flores, principalmente, oriundas de regiões mais quentes ficam queimadas pela geada, necessitando proteção do tipo telhado para que não sucumbam. Mas isso é normal e eu deixo que a maioria das plantas que possuo fiquem à mercê do clima. Sempre acho interessante ver a luta travada pela natureza contra as intempéries, que também é a natureza. Quero observar tudo, sentir a natureza, não me importo em ficar com o jardim apresentando aquele aspecto típico de plantas queimadas. Faz parte! Além disso, tem a beleza típica de uma manhã fria, com a geada cobrindo o solo, nas copas das árvores e nos telhados. O sol reafirma seu valor e é suficiente sentarmo-nos em qualquer lugar para que ele nos aqueça. O doce prazer de ficar madornando ao sol. Não quero ficar enfatizando as vissicitudes humanas e enaltecendo as qualidades naturais, feito Thoreau em Walden, mas um pouquinho deixarei registrado. A corrida desbragada do ser humano em busca de suas necessidades básicas de sobrevivência tem deixado todos, quase sem excessão, com o olhar cego para a Natureza. Assim, baseado nesta linha de reflexão que resolvi fixar com mais vagar o meu redor.
Vejam, por exemplo, a beleza que está acontecendo nestes dias com as frutas do caquizeiro que está ao lado da minha casa e que posso contemplá-lo da varanda envidraçada. Como posso deixar passar em branco isso? Quanto não viajaria para contemplar esse momento? O caquizeiro perdeu suas folhas e está lotado de caquis maduros e em estágio final de amadurecimento. O caquizeiro permanece o dia inteiro cheio de aves que vem em busca de alimentação nesta época de poucas frutas nas matas nativas. Considere, também, que o desmatamento tem deixado pouca alimentação de árvores nativas para os animais. Então, uma árvore lotada de caquis e à disposição é um prato cheio. A variedade de aves que aqui aparecem é razoável. Moradores das cercanias contam exageradamente sobre as quantidades e variedades que existia antigamente, "de vergar os galhos de tantos passarinhos". Aproveitei e cliquei com uma nikkon D40X, tele 200 mm, as aves que foram aparecendo e publico algumas para compartilhar com vocês. São baitacas (psitacídeos), sanhaços, saíras, beija-flores, sabiás de todos os naipes (laranjeira, preto, coleira e peito branco), mariquita (uma ave do tamanho de uma corruíra, ou seja, pequena = quem não conhece corruíra?), trinca ferro, até o bem-te-vi, conhecido insetívoro, vem fazer uma boquinha aqui no caquizeiro, pica-pau (também este que tem outra fama alimentar), tico-tico, canarinhos, sete cores, alguns desconhecidos que estou precisando consultar livro de ornitologia para saber seus nomes.
Também foi com surpresa que vi aparecer perto da minha casa, fugido do mato pelas detonações das pedreiras de granito das redondezas, que chamou atenção pelo barulho desesperado que fazia. Era um bugio. Lindo, forte, saudável, mas, notem pela cara que o sentimento que expressa é de tristeza e também de desânimo. Ele está num galho de araucária e ao fundo aparecem os galhos de Pinus iliottis (idiotis), Só esta cena parece justificar a tristeza do bugio, pouca araucária e muito pinus. Aliás, vem bem a tempo a Campanha que está sendo desenvolvida para "NÃO DEIXAR CHEGAR NO ZERO" as nossas matas nativas de Araucária angustifolia. As florestas de araucária que cobriam o Paraná, Santa Catarina e o Rio Grande do Sul estão dizimadas. Aqui no Paraná existe ainda remanescente de matas de araucárias nativas 0,7% (sim, zero vírgula sete porcento). Isso é zero mesmo e ainda querem modificar as leis de mata ciliar e derrubarem o que resta. Por isso a campanha é já na beira da cova e precisamos prestar atenção no nosso Planeta, que o seu prazo está findando.
Assim, pensando na Vida, na Natureza, como algo maior , acima da nossa vidinha diária de sobrevivência foi que dei um tempinho na cerâmica para OLHAR AO MEU REDOR, ficar estarrecido com a beleza natural, e tentar ajudar em alguma coisa pelo nosso Planeta.

terça-feira, 26 de maio de 2009

VOLTANDO A TIBAGI-PR







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Voltei duas semanas de quatro dias para complementar meu curso de Cerâmica Básica em Tibagi. Como o curso é pelo SenarPR, precisava novas 10 pessoas, adultas para viabilizar o meu curso. Aquelas pessoas que fizeram o curso anterior também participaram, porém não todas. Bem, primeiro fiquei feliz por poder retornar a Tibagi e complementar minhas aulas, dar um aperfeiçoamento para aqueles que se interessaram. O afluxo de pessoas foi interessante, apesar da divulgação ter sido aquém do que poderia ter sido feito. Tibagi continua sendo um local de grande potencial para o desenvovimento do artesanato Cerâmico. Tinham ficado pendentes os testes com as argilas locais. Agora que complementei os estudos, juntamente com o que pesquisei do Mineropar, concluí que, realmente, a argila local, para queima a 800 graus centígrados não é boa. A resistência à flexão é mínima. Este teste é feito com placas de 14 cm x 4 cm, com 1 cm de espessura. Pegamos a amostra queimada e quebramos e comparamos com outras argilas queimadas da mesma forma, de procedência externa, por exemplo de Curitiba, a que eu uso no meu ateliê. A minha é resistente, tem boa sonoridade. A de Tibagi é fraca o som é abafado. A retração de queima foi de 9% = boa.
A solução já tinha sugerido anteriormente, comprar argila plástica de outra procedência. Como conhecia a massa de Balsa Nova, que é preparada com 4 argilas e vendida ao preço de 10 centavos o quilo, articulei para que a Prefeitura local, juntamente com o Sindicato Rural de Tibagi, comprassem de Balsa Nova e levassem para o ateliê uma quantidade razoável de massa preparada. Conclusão, conseguimos que se disponibilizassem 6.400 kgs de massa preparada, posta num caminhão da Prefeitura, no terreno da Atiart (associação de artesanato). É uma quantidade prá lá de boa, aliás, nunca tinha visto anteriormente tanta massa pronta disponível para qualquer curso que eu tenha participado. Chegando esta quantidade formidável de massa, todos os participantes da oficina entraram em cooperação para a descarga e arrumação dessa massa cobrindo com plástico para não endurecer. Este estoque poderá durar por 4 ou 5 anos se usada corretamente. Fica a responsabilidade para que os próprios participantes da oficina tomem o controle da situação e distribuam de forma correta para que não se desperdice, mas que sirva como fonte de aprendizado e de renda. Realmente é estimulante poder trabalhar com fartura de massa.
Durante esta nova etapa de curso em Tibagi, fizemos duas queimas no forno artesanal construído anteriormente. Como o forno já tinha sido queimado, estas duas novas queimas foram excelentes. O forno comportou-se perfeitamente e nas duas queimas apenas tivemos uma quebra por estouro, que quando analisada verificou-se que ficara uma bolha de ar no interior da peça, o que ocasionou a detonação.
Visitei o Museu de Tibagi e aproveitei para aprender algo sobre a cidade. Vi, pela primeira vez um seixo rolado de caldeirão. Seixo perfeitamente esférico e fiquei enlevado com a Natureza, sempre me surpreendendo, até nestas cosinhas pequenas. Amostras de diamentes aí garimpados, como também outras pedras preciosas fazem parte do acervo. A cerâmica indígena também está presente, de origem caingangue. Aproveito sempre para salientar a necessidade dos participantes do curso de cerâmica irem observar as peças indígenas cerâmicas, agora com novos olhos. Sob o ponto de vista de quem está modelando cerâmica. Daí pode ser observado a cor da massa, a decoração, a espessura das peças, a qualidade da queima e , principalmente, a qualidade estética e o modelado.É uma redescoberta para todos e uma admiração pela nossa cultura indígena tão desprezada e depreciada.
Tibagi tem Natureza. Observei que administrações anteriores fizeram um parque, no centro da cidade, que tem acesso até o Rio Tibagi. Parece meio abandonado, mas sente-se que foi feito para entrar em contacto com Rio. É uma pena que hoje, com a televisão alugando o dia inteiro as pessoas, poucas aproveitem a beleza natural que Tibagi tem. Pude ver um bando de garças passando a noite numa árvore. Estavam lá de manhãzinha e fotografei. O som das corredeiras tão terapêutico e ancestral é um lenitivo para nossas alma. Desta vez que estive em Tibagi aproveitei para acordar cedinho e caminhar pela cidade e observar como ela acorda, as pessoas indo e vindo, as crianças indo para a escola. Aliás, acho uma imagem belíssima ver uma criança indo para a escola com seu uniforme e sua pasta.
Percebi que houve uma evolução na qualidade de modelado em cerâmica desde a primeira vez que estive em Tibagi. O aprendizado cerâmico, repito, é demorado, mas tem pessoas hábeis e que conseguem um resultado em curto espaço de tempo. O ideal seria que houvesse um investimento maior na cidade, na geração de renda, como pelo Provopar, por exemplo. A Associação fez um pedido ao Provopar de Curitiba e estão aguardando resposta. Se positivo, seria uma resposta magnífica, pois neste caso até o Sindicato Rural entraria com uma ampliação nas instalações da Associação, para abrigar um forno elétrico e um torno cerâmico elétrico. Isso permitiria que, com treinamento, o artesanato evoluísse para poder ficar em condições de produzir cerâmica de alta qualidade, tanto artesanal de baixa temperatura, como, também, de alta. Não que não se possa fazer uma cerâmica de qualidade com o que se tem, muito pelo contrário, basta ver o resultado da cerâmica indígena com sua altíssima qualidade.
Fiz a minha parte, dediquei-me inteiramente, articulei para que a associação recebesse a massa em quantidade mais do que suficiente, deixei pronto pedido para chegada de equipamentos e construção de instalações (devo dizer que os cursos foram ministrados em locais improvisados).