terça-feira, 28 de julho de 2009

CERÂMICA GUARAQUEÇABA-2a.parte







Retornei a Guaraqueçaba para completar o curso de Cerâmica Básica. São oito dias em duas etapas. Nesta segunda etapa construí o forno artisanal para queima de biscoito, com temperatura maxima entre 800 a 900 graus centígrados. Para efetivar essa construção conto com a ajuda de todos, do contrario não teria sentido até porque é uma atividade super importante a construção e conhecer como se constroi um forno. Principalmente este forno que é feito de tijolos e argila preparada com um antiplástico, sendo que na cobertura final, para suportar melhor as intempéries cubro com uma massa autofraguante. O tempo estava chuvoso nesta segunda etapa. O ultimo dia foi de chuva forte e, com vento sul, frio. Mas eu gosto de frio e de chuva também, não tem mau tempo.
Sempre na segunda etapa do curso eu percebo melhor o que está acontecendo com as pessoas que participam, sua forma de trabalhar, seu grau de conhecimento e qualidade técnica.
Em Guaraqueçaba, como em todas as comunidades que conheci, com excessão da comunidade Quilombola João Surá em Adrianópolis, há um desafio permanente de convívio entre as pessoas em direção a um objetivo comum. É dificil conseguir uma união total entre as pessoas. Mas acho que, no balanço geral a Cooperativa de Guaraqueçaba está caminhando para uma melhoria. Aos poucos alguns trabalhos tem melhorado. A cerâmica está precisando de um acompanhamento técnico em várias setores da cerâmica artesanal. Primeiro porque, sendo uma comunidade isolada, não tem como as pessoas fazerem cursos de aperfeiçoamento facilmente. Precisam vir a Curitiba ou ir a Sampa o que é mais difícil ainda. Para fazer um diagnóstico , quando se tem mais acesso ao conhecimento, torna-se mais fácil. São duas partes: a técnica e a artística. Na parte técnica, por exemplo, formas de gesso para fundição em cerâmica simplificaria muito, trabalho. A serigrafia com trabalhos fotográficos ou mesmo mesmo decolcomanias, vidrados mais baratos, como, por exemplo, de argilas, cinzas, feldspatos, etc. O acabamento é o nó górdio da maioria da cerâmica popular, principalmente quando existe um trabalho a ser desenvolvido e isso, às vezes, demora uma geração. Não dá para enganar o rústico com o mal feito, por isso, o capricho, o acabamento é essencial. Nisso eu vejo que as pessoas estão melhorando. Porém, um investimento com mão de obra qualificada para ajudar a superar etapas simplificaria o resultado.
Na parte artística, precisaria ser feito um amplo estudo das características locais, para desenvolver um artesanato com as impressões da cultura que aí se desenvolveu e a presente. Depois criar esse artesanato, incorporá-lo ao fazer artístico.
Mas a Cooperativa está encontrando seu caminho, indo atrás de verbas que possam ser direcionadas para esses quesitos.
Sempre levo comigo muitos livros, alguns dvds sobre cerâmica que ajudam a compreender o que está ac ontecendo em outros lugares, para que se coloquem todos em pé de igualdade.
Tem talentos, como de resto em toda parte, que podem e estão sendo aproveitados e é um prazer dar aulas onde as pessoas fiquem interessadas e executem trabalhos com vontade e o resultado aparece.
Aparecem na foto umas peças de cerâmica pequenas. São chumbeiros. Chumbeiros são pesos para serem colocados em redes de pesca. Antes da disseminação das chumbadas de chumbo mesmo, tão fáceis de serem adquiridas, os chumbeiros eram confeccionados de cerâmica. Estes das fotos foram modelados por pescadores e cada um tem sua função e sua forma de adaptar na rede para uso. Foi interessante a observação de um filho de pescador, que tinha visto seu pai confeccionar estes chumbeiros e queimá-los em forno artesanal, próprio para a queima cerâmica. Ele, sabendo que na cooperativa estam tendo problemas de entornamento e rachaduras nas peças, perguntou se usavam areia na massa. A areia, como um dos principais anti-plásticos cerâmicos, que ajuda a não rachar, entornar e melhora a secagem, era o material adicionado à argila para compor a massa dos chumbeiros
Na outra foto vemos a Iolanda, artesã de Guaraqueçaba, modelando suas figuras expressivas e já premiadas.
Tenho particular carinho pela Cooperativa de Guaraqueçaba, pelas pessoas, e me esforço para repassar tudo o que conheço de forma honesta e sincera.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

CERAMICA BASICA EM GUARAQUECABA-PR




CERÂMICA EM GUARAQUEÇABA



Voltei, depois de alguns anos, a Guaraqueçaba para dar um curso de Cerâmica Básica, na Cooperativa dos Artesãos. A sede, à beira mar, é de primeira qualidade, construída pelo Governo do Paraná. Há 5 anos atrás comecei a dar os primeiros cursos de cerâmica que aqui não existia, a não ser em tradição, já perdida. Guaraqueçaba é um município situado dentro da Baía de Paranguá, na parte norte. É um dos municípios mais antigos do Estado. A tradição cerâmica existiu ha algum tempo atrás, principalmente pela Sinhorinha, conhecida ceramista, da Ilha dos Medeiros. Sobre ela foi feito um video, quando em vida, que corre por aí e eu possuo uma cópia.
Voltando à Cooperativa, estava curioso para saber como desenrolaram os trabalhos dos associados, depois de todo esse tempo e sentia necessidade, inclusive, de saber se tinha gerado frutos permanentes. Alguns ceramistas populares daqui foram premiados nos três últimos Salões de Cerâmica de Curitiba. Neste trabalho de Geração de Renda, com patrocínio do Estado, e agora pelo Senar-PR, nem sempre é compensador. Depois de ir num lugar, dedicar-se, tentar chamar as pessoas para desenvolver um trabalho de independência, se não houver continuidade , acompanhamento durante um tempo mínimo, a idéia morre e a foirça perde o ímpeto.
Guaraqueçaba é uma cidade muito bonita, charmosa, situada num ponto geográfico estratégico da baía de Paranaguá. Sempre gostei daqui. Desde sempre.
Na Cooperativa são desenvolvidos vários trabalhos: cestaria, papéis artesanais, utilitários de Madeira, trabalhos de cestaria e Madeira feito pelos índios guaranis , artesanato com conchas são vendidos na loja. Além da cerâmica, é claro. A cerâmica tem todos os equipamentos necessários para desenvolver uma certâmica de excelência. Forno de alta temperatura, elétrico, maromba extrusora de grande potência, plaqueira, torno cerâmico elétrico, dois tornos de pedal, e um espaço muito grande para uso e abuso.
A cerâmica necessita continuidade. O modelado, o acabamento não se aprende rapidamente. Necessita estudo, aprendizado continuado. Percebo que depois de muitos anos estudando cerâmica, mesmo sendo Engenheiro Químico, ainda encontro tantas coisas a aprender que vejo diversão para resto da vida e ainda deixar incompleto tudo o mais que eu gostaria de aprender.
Vou construir um forno à lenha de baixa temperatura para queima de biscoito, iguais àqueles que construí noutras comunidades e que funciona de forma perfeita. Percebo que a sobrevivência de cooperativados, associados, artesãos, necessita de um aperfeiçoamento constante e uma visao de Mercado, um pouco simples, mas objetiva. Qual é o artesanato que melhor vende? Acredito que a personalidade do ceramista é o que mais conta. Tem que existir o Mercado consumidor, evidentemente, mas aqui tem. Os turistas aqui afluem e é preciso saber o que vai agradá-los e produzir com qualidade. Panelas, cinzeiros, porta guardanapos, vasos, travessas, pequenas esculturas, luminárias, bijuterias, são , basicamente, os produtos.
O que se precisa melhorar e trabalhar bastante é o acabamento, não confundir o rústico com o mal feito é o lema. É nisso que estou batalhando na Cooperativa.
Voltarei daqui a 8 dias para completar o curso.

sábado, 13 de junho de 2009

CERAMICA E MEIO AMBIENTE






Neste final do mês de maio e começo de junho, com 3 dias seguidos de geada e a temperatura chegando a menos 4 graus negativos, voltamos a sentir um pouco de frio.
Friozinho passageiro, porque aqui no paralelo 25, hemisfério sul, já foram comuns geadas sucessivas e semanas de frio de congelar a ponta do nariz.
As plantas frutíferas e flores, principalmente, oriundas de regiões mais quentes ficam queimadas pela geada, necessitando proteção do tipo telhado para que não sucumbam. Mas isso é normal e eu deixo que a maioria das plantas que possuo fiquem à mercê do clima. Sempre acho interessante ver a luta travada pela natureza contra as intempéries, que também é a natureza. Quero observar tudo, sentir a natureza, não me importo em ficar com o jardim apresentando aquele aspecto típico de plantas queimadas. Faz parte! Além disso, tem a beleza típica de uma manhã fria, com a geada cobrindo o solo, nas copas das árvores e nos telhados. O sol reafirma seu valor e é suficiente sentarmo-nos em qualquer lugar para que ele nos aqueça. O doce prazer de ficar madornando ao sol. Não quero ficar enfatizando as vissicitudes humanas e enaltecendo as qualidades naturais, feito Thoreau em Walden, mas um pouquinho deixarei registrado. A corrida desbragada do ser humano em busca de suas necessidades básicas de sobrevivência tem deixado todos, quase sem excessão, com o olhar cego para a Natureza. Assim, baseado nesta linha de reflexão que resolvi fixar com mais vagar o meu redor.
Vejam, por exemplo, a beleza que está acontecendo nestes dias com as frutas do caquizeiro que está ao lado da minha casa e que posso contemplá-lo da varanda envidraçada. Como posso deixar passar em branco isso? Quanto não viajaria para contemplar esse momento? O caquizeiro perdeu suas folhas e está lotado de caquis maduros e em estágio final de amadurecimento. O caquizeiro permanece o dia inteiro cheio de aves que vem em busca de alimentação nesta época de poucas frutas nas matas nativas. Considere, também, que o desmatamento tem deixado pouca alimentação de árvores nativas para os animais. Então, uma árvore lotada de caquis e à disposição é um prato cheio. A variedade de aves que aqui aparecem é razoável. Moradores das cercanias contam exageradamente sobre as quantidades e variedades que existia antigamente, "de vergar os galhos de tantos passarinhos". Aproveitei e cliquei com uma nikkon D40X, tele 200 mm, as aves que foram aparecendo e publico algumas para compartilhar com vocês. São baitacas (psitacídeos), sanhaços, saíras, beija-flores, sabiás de todos os naipes (laranjeira, preto, coleira e peito branco), mariquita (uma ave do tamanho de uma corruíra, ou seja, pequena = quem não conhece corruíra?), trinca ferro, até o bem-te-vi, conhecido insetívoro, vem fazer uma boquinha aqui no caquizeiro, pica-pau (também este que tem outra fama alimentar), tico-tico, canarinhos, sete cores, alguns desconhecidos que estou precisando consultar livro de ornitologia para saber seus nomes.
Também foi com surpresa que vi aparecer perto da minha casa, fugido do mato pelas detonações das pedreiras de granito das redondezas, que chamou atenção pelo barulho desesperado que fazia. Era um bugio. Lindo, forte, saudável, mas, notem pela cara que o sentimento que expressa é de tristeza e também de desânimo. Ele está num galho de araucária e ao fundo aparecem os galhos de Pinus iliottis (idiotis), Só esta cena parece justificar a tristeza do bugio, pouca araucária e muito pinus. Aliás, vem bem a tempo a Campanha que está sendo desenvolvida para "NÃO DEIXAR CHEGAR NO ZERO" as nossas matas nativas de Araucária angustifolia. As florestas de araucária que cobriam o Paraná, Santa Catarina e o Rio Grande do Sul estão dizimadas. Aqui no Paraná existe ainda remanescente de matas de araucárias nativas 0,7% (sim, zero vírgula sete porcento). Isso é zero mesmo e ainda querem modificar as leis de mata ciliar e derrubarem o que resta. Por isso a campanha é já na beira da cova e precisamos prestar atenção no nosso Planeta, que o seu prazo está findando.
Assim, pensando na Vida, na Natureza, como algo maior , acima da nossa vidinha diária de sobrevivência foi que dei um tempinho na cerâmica para OLHAR AO MEU REDOR, ficar estarrecido com a beleza natural, e tentar ajudar em alguma coisa pelo nosso Planeta.

terça-feira, 26 de maio de 2009

VOLTANDO A TIBAGI-PR







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Voltei duas semanas de quatro dias para complementar meu curso de Cerâmica Básica em Tibagi. Como o curso é pelo SenarPR, precisava novas 10 pessoas, adultas para viabilizar o meu curso. Aquelas pessoas que fizeram o curso anterior também participaram, porém não todas. Bem, primeiro fiquei feliz por poder retornar a Tibagi e complementar minhas aulas, dar um aperfeiçoamento para aqueles que se interessaram. O afluxo de pessoas foi interessante, apesar da divulgação ter sido aquém do que poderia ter sido feito. Tibagi continua sendo um local de grande potencial para o desenvovimento do artesanato Cerâmico. Tinham ficado pendentes os testes com as argilas locais. Agora que complementei os estudos, juntamente com o que pesquisei do Mineropar, concluí que, realmente, a argila local, para queima a 800 graus centígrados não é boa. A resistência à flexão é mínima. Este teste é feito com placas de 14 cm x 4 cm, com 1 cm de espessura. Pegamos a amostra queimada e quebramos e comparamos com outras argilas queimadas da mesma forma, de procedência externa, por exemplo de Curitiba, a que eu uso no meu ateliê. A minha é resistente, tem boa sonoridade. A de Tibagi é fraca o som é abafado. A retração de queima foi de 9% = boa.
A solução já tinha sugerido anteriormente, comprar argila plástica de outra procedência. Como conhecia a massa de Balsa Nova, que é preparada com 4 argilas e vendida ao preço de 10 centavos o quilo, articulei para que a Prefeitura local, juntamente com o Sindicato Rural de Tibagi, comprassem de Balsa Nova e levassem para o ateliê uma quantidade razoável de massa preparada. Conclusão, conseguimos que se disponibilizassem 6.400 kgs de massa preparada, posta num caminhão da Prefeitura, no terreno da Atiart (associação de artesanato). É uma quantidade prá lá de boa, aliás, nunca tinha visto anteriormente tanta massa pronta disponível para qualquer curso que eu tenha participado. Chegando esta quantidade formidável de massa, todos os participantes da oficina entraram em cooperação para a descarga e arrumação dessa massa cobrindo com plástico para não endurecer. Este estoque poderá durar por 4 ou 5 anos se usada corretamente. Fica a responsabilidade para que os próprios participantes da oficina tomem o controle da situação e distribuam de forma correta para que não se desperdice, mas que sirva como fonte de aprendizado e de renda. Realmente é estimulante poder trabalhar com fartura de massa.
Durante esta nova etapa de curso em Tibagi, fizemos duas queimas no forno artesanal construído anteriormente. Como o forno já tinha sido queimado, estas duas novas queimas foram excelentes. O forno comportou-se perfeitamente e nas duas queimas apenas tivemos uma quebra por estouro, que quando analisada verificou-se que ficara uma bolha de ar no interior da peça, o que ocasionou a detonação.
Visitei o Museu de Tibagi e aproveitei para aprender algo sobre a cidade. Vi, pela primeira vez um seixo rolado de caldeirão. Seixo perfeitamente esférico e fiquei enlevado com a Natureza, sempre me surpreendendo, até nestas cosinhas pequenas. Amostras de diamentes aí garimpados, como também outras pedras preciosas fazem parte do acervo. A cerâmica indígena também está presente, de origem caingangue. Aproveito sempre para salientar a necessidade dos participantes do curso de cerâmica irem observar as peças indígenas cerâmicas, agora com novos olhos. Sob o ponto de vista de quem está modelando cerâmica. Daí pode ser observado a cor da massa, a decoração, a espessura das peças, a qualidade da queima e , principalmente, a qualidade estética e o modelado.É uma redescoberta para todos e uma admiração pela nossa cultura indígena tão desprezada e depreciada.
Tibagi tem Natureza. Observei que administrações anteriores fizeram um parque, no centro da cidade, que tem acesso até o Rio Tibagi. Parece meio abandonado, mas sente-se que foi feito para entrar em contacto com Rio. É uma pena que hoje, com a televisão alugando o dia inteiro as pessoas, poucas aproveitem a beleza natural que Tibagi tem. Pude ver um bando de garças passando a noite numa árvore. Estavam lá de manhãzinha e fotografei. O som das corredeiras tão terapêutico e ancestral é um lenitivo para nossas alma. Desta vez que estive em Tibagi aproveitei para acordar cedinho e caminhar pela cidade e observar como ela acorda, as pessoas indo e vindo, as crianças indo para a escola. Aliás, acho uma imagem belíssima ver uma criança indo para a escola com seu uniforme e sua pasta.
Percebi que houve uma evolução na qualidade de modelado em cerâmica desde a primeira vez que estive em Tibagi. O aprendizado cerâmico, repito, é demorado, mas tem pessoas hábeis e que conseguem um resultado em curto espaço de tempo. O ideal seria que houvesse um investimento maior na cidade, na geração de renda, como pelo Provopar, por exemplo. A Associação fez um pedido ao Provopar de Curitiba e estão aguardando resposta. Se positivo, seria uma resposta magnífica, pois neste caso até o Sindicato Rural entraria com uma ampliação nas instalações da Associação, para abrigar um forno elétrico e um torno cerâmico elétrico. Isso permitiria que, com treinamento, o artesanato evoluísse para poder ficar em condições de produzir cerâmica de alta qualidade, tanto artesanal de baixa temperatura, como, também, de alta. Não que não se possa fazer uma cerâmica de qualidade com o que se tem, muito pelo contrário, basta ver o resultado da cerâmica indígena com sua altíssima qualidade.
Fiz a minha parte, dediquei-me inteiramente, articulei para que a associação recebesse a massa em quantidade mais do que suficiente, deixei pronto pedido para chegada de equipamentos e construção de instalações (devo dizer que os cursos foram ministrados em locais improvisados).

quarta-feira, 15 de abril de 2009

VIVÊNCIA DE RAKU-GRUPO ALTERNATIVO





Dando continuidade à série de Vivências de Raku, tive um encontro que foi muito interessantes com um grupo de pessoas ligados à terapias alternativas. Desde modo, pessoas com interesses diferentes, no seu dia a dia, também aproveitam para aprender cerâmica e encantar-se com os rápidos resultados desse tipo de queima. O mais bacana desse negócio é que existe uma união entre as tribos de pessoas que olham o nosso mundo contemporâneo de forma diversa, acreditando na melhoria do Homem no Planeta Terra. Essa melhoria tem a ver com o auto-desenvolvimento e com a atitude direta da própria pessoa frente à vida. Não é somente um papo de final de semana sentado nalgum lugar para resolver sua vida e na segunda feira começa no batente, esquecendo tudo o que botou prá fora, de suas ansiedades, suas decisões, mas, na verdade, não sai da mesma. Plagiando um velho conhecido: "o bom é beber com alguém que não se lembre nada no dia seguinte"...
A Cerâmica artística artesanal é uma forma alternativa de sobrevivência e também de atitude. O nosso mundo lotado de falsas ilusões, de promessas, vem exaurindo a humanidade e o planeta. Vemos nosso clima mudar de forma radical e ainda tem pessoas que estão afirmando que nada tem a ver, que são ciclos naturais. Todavia qualquer idiota está vendo que cambiou totalmente a temperatura e a humidade em praticamente todas as regiões. Aqui em Curitiba, por exemplo, nos anos 70 era a cidade da garoa, como São Paulo, agora nada disso, garoa raramente vemos. As vazões dos rios tem diminuído, a temperatura aumentou absurdamente. Quando forma uma geada aqui no primeiro planalto paranaense, não segura nem dois dias. Naqueles anos acima citados eram semanas de frio e geada. Não sou saudosista, apenas lamento e fico muito desesperançoso por tudo isso que vejo. Não consigo olhar a vida, o planeta, de forma local. Prá mim está tudo interligado, o Homem, a Natureza, o Universo. Por isso, a minha vida está baseada neste ponto de vista. A Vida no planeta terra é muito maior do que a civilização humana. A Terra, no Universo, é apenas uma poeira, um grãozinho de nada, perdido nas vastidões infinitas do Desconhecido. Mas ao contemplarmos a natureza, com sua diversidade, beleza, com sua direção, Inteligência, temos a certeza de que a vida não é "uma anedota, contada por um idiota, cheio de sons e fúria, não significando nada". Com esta consciência, qualquer atitude é uma atitude política, tando no plano pessoal, no social quanto no planetário. Atitudes ecologicamente corretas vem de encontro com as necessidades do Planeta, dentro de uma idéia de Desenvolvimente Sustentável, que se baseia no tripé: Social, Histórico e Ambiental.
Até as argilas são consideradas bens não renováveis, idéia absurda até pouco tempo atrás, mas que agora vem assustar os mais conservadores. Os estoques de caulim, argila plástica, que demoraram milhões de anos para serem formadas, se forem usadas neste ritmo assustador de nossa Civilização, acabará dentro de prazo de poucas centenas de anos, o que é quase nada se olharmos dentro de uma escala de tempo um pouquinha mais ampla. E claro que outras tecnologias serao inventadas, mas o buraco aumenta.
A Vivência dde Raku rolou fácil, tranquila, as pessoas estavam conectadas com o trabalho, o resultado foi excelente. Aprecio sempre a diversidade das formas de pintura principalmente das pessoas que nunca anteriormente tiveram alguma experiência cerâmica. São 3 queimas e o resultado vai aparecendo, na primeira timidamente e depois vai crescendo, melhorando. Como os vasos já estão prontos, porque as peças já estão biscoitadas a 800 graus centígrados, somente é possível decorar as peças, pois seria impraticável modelar e queimar no mesmo dia. Não impossível, porque com uma massa com muito talco e chamote, poderia ser tentado uma monoqueima, com tempo maior de queima. Cada queima é feita em 45 minutos em média. Para uma monoqueima esse tempo teria que ser ampliado. Todavia a monoqueima apresenta algumas desvantagens de ordem prática. A principal que eu acho é que a absorção do vidrado na peça é baixa, exigindo maior técnica de pintura. A massa das pecas que torneio contem muito chamote, areia e talco, somando uns 30%.
Sempre preparo as soluções de vidrados para as vivências. Utilizo poucas cores, no máximo 7, 8, diferentes. Uso azul cobalto, azul cobalto com estanho para dar um vidrado leitoso que acho bonito, verde cromo, o óxido de cobre com as suas possibilidades na redução, dando coloração avermelhada e misturada com verde quando a redução não é muito forte. Preparo, também, um branco com estanho e feldspato, o transparente não pode faltar. Alguns vidrados preparo com colemanita ou bórax, apesar de sempre assustar a platéia quando começa a inchar e borbulhar ao aproximar-se dos 980 graus centígrados que é a temperatura que uso para o raku. A base quase sempre é o cmf 096, barato e que vai bem com os pigmentos.

terça-feira, 7 de abril de 2009

MEIO AMBIENTE-ARGILAS DE BARRANCO




O viés de Meio Ambiente nas atividades alternativas permite que se propague cada vez mais a idéia de preservação. Nunca deixo de aproveitar o gancho das aulas de cerâmica ou das Vivências para dar um toquezinho na necessidade de uma postura preservacionista nas nossas vidas diárias. A opressão que sofremos pelos grandes grupos econômicos que olham a Natureza como uma reserva de matéria-prima a ser explorada e, por extensão, o próprio ser humano, deixam uma margem de manobra para se viver uma vida melhor meio pequena. Vemos claramente como somos explorados nas questões básicas da nossa vida: pagamos por tudo e os preços sabemos não serem baratos. O telefone é um absurdo que parece brincadeira a forma como é enfiada goela abaixo e temos que aceitar porque precisamos de comunicação, com as pessoas tanto diretamente como pela internet. Eu, morando na área rural, estaria ralado se não contasse com a internet, apesar de funcionar capenga e ser caríssima. Pago 120 mangos por mês e a velocidade é baixíssima e mesmo assim preciso e quero. O lixo da atividade humana é algo assustador. Não existe na Natureza lixo que não se recicla. O produzido pela nossa civilização é armazenado e ficará de brinde para as gerações que nos sucederem. Sem falar o atômico, principalmente dos países, a França, Inglaterra, USA, etc. E olhe que eles é que são os CIVILIZADOS. Nós do terceiro mundo sabemos muito bem como somos tratados, pelo nosso atraso cultural e tecnológico, mas o lixo, a poluição, a exploração vem deles, a nacional é copiada nos mesmos termos.
Moro na Estrada da Graciosa, na Serra do Mar, primeiro planalto Curitibano. A paisagem aqui é montanhosa. O Morro Anhangava é cartão de visita de Quatro Barras que é a cidade onde moro. Na foto o Anhangava esta no plano de fundo. Apesar de estar na área rural, fico a 10 km do centro da cidade e a 40 km do centro de Curitiba. Estou cercado pela Serra do Mar. O citado Anhangava que é considerado um morro escola para escalada, tem pista de Asa Delta. Também o Pico Marumbi é muito conhecido por estar ao lado da estrada de ferro que desce até o litoral. Os paranaenses que há décadas sobem estas montanhas substituiram o termo alpinismo, por marumbinismo.O Pico Paraná, com 1964 metros de altitude está à vista, é o ponto mais alto do sul (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul).
Aproveito também a atividade humana, que em termos ambientais parece uma agressão, porém, necessária, para o meu tabalho. Por exemplo, agora estão asfaltando a Estrada da Graciosa, a mais antiga estrada do Paraná. O movimento de corte de barranco apresentou uma variedade colorações de argilas para se fazer engobes, que é uma alegria aproveitar. Argilas amarelas, roxas, lilás, vermelhas, brancas, até bentonita é explorada nesta região, salmão, rosada, todas estas cores aparecem nos barrancos. Como tenho meu ateliê na Serra do Mar, a qual é composta principalmente de granito, que é quartzo, mica e feldspato, misturados, as argilas decorrentes da decomposição dessas rochas são abundantes. Tem uma argila branca, plástica que as pessoas da região chamam de sabão de caboclo, muito boa para compor massas. As argilas coloridas eu vou incorporando nas massas que produzo. Deste modo vou obtendo cores , tons variados nas minhas massas artesanais. Também os engobes naturais são muito interessantes. Estas argilas também podem ser usadas para pinturas de paredes de alvenaria, ou até paredes alternativas de adobe. Os pigmentos naturais permanecem com a mesma cor, sempre, já que é o ultimo estagio da oxidação das rochas.
Por isso, nunca compro massa preparada, sempre componho as minhas. É muito fácil, simples, e quando se pega o traquejo, a independência de massas é fundamental. É claro que quando quero uma massa de coloração branca, quando preparo um grês, uso argila e caulim de mineradoras locais, que, direto da fonte, são baratas. Aqui na região Metropolitana de Curitiba temos mineradoras de argilas de queima branca muito plásticas, caulins aluminosos excelentes para queimas até 1300 graus centígrados.Estas argilas de barranco são sempre anti-plásticas, portanto entram na composição das massas com até 30%. Porém suficiente para predominarem na coloração da massa. Existe uma variedade de granulometria nestas argilas e sempre é preciso, quando não se tem prática, testar a quantidade colocada para a massa não ficar pouco plástica e rachar com facilidade no modelado. Quando se olha um barranco que foi cortado por uma maquina, pelo brilho do corte pode ser avaliado a granulometria da argila. Os barrancos mais brilhantes sao os de argila mais fina. Para peças de terracota, ou seja, sem decoração com vidrado, as argilas de barranco são mais interessantes ja para peças vitrificadas elas funcionam melhor como engobe.

domingo, 5 de abril de 2009

V IVÊNCIA PORANGABA - RAKU



No dia 21 de março, jutamente com a Ceramista curitibana Ocléris Muzzilo, fiz uma Vivência cerâmica no meu ateliê. Estas Vivências para pequenos grupos, de 10 a 13 pessoas tem uma rapidez e fluência muito interessante. Esta Vivência foi planejada para um grupo de mulheres esposas de franceses que vem ao Brasil para trabalhar nas fábricas de automóveis. Como, por legislação, não podem trabalhar no nosso país, muitas dedicam-se a desenvolver seus dotes artísticos. O Joaquim, ceramista português, que estava construindo o forno catenário aproveitou para participar, bem como a Alexandra Camillo, de Campo Grande que participara também da construção do forno citado.
A Vivência de Raku tem uma particularidades especiais. Este tipo de queima de cerâmica é muito rápida e apresenta resultados lidos imediatamente. Por isso os participantes, em 3 queimas, podem vivenciar esta técnica e ainda levar seus resultados para casa. As peças, 3 para cada participante, são pintadas e durante o dia completamos 3 queimas. Na sequencia das queimas há, sempre, uma evolução evidente e o resultado é recebido com muita satisfação.
Preparo nestas vivências quase sempre vidrados não tóxicos, eliminando os de chumbo e os vermelhos, laranjas e amarelos de cádmio e selênio evito ao máximo, apesar da atração destas cores para todos. Como é um dia apenas de Vivência, começa às 9 da manhã e termina às 17 horas, e os participantes quase sempre não tem experiência anterior e por isso o uso dos vidrados tóxicos ( Pb, Se, Cd) não é visto com muito cuidado e é necessário estar junto para que não fiquem espalhados pelo ateliê = mesa e chão. Todo ceramista deve sempre ter muita atenção para estes vidrados porque, ao longo do tempo se luvas, máscaras, bonés e toda proteção não for seguida à risca, a intoxicação por metais pesados fatalmente afetará o desavisado.
A queima de Raku permite uma ação rápida que é ótimo porque todos ficam intensamente atraídos pela experiência. Além disso, aproveitando o fato de ser uma Vivência e por isso entende-se uma interação entre os participantes, o espaço do ateliê, o espaço físico onde acontece a Vivência, no caso a chácara onde moro, tudo transcorre de forma muito agradável. Enquanto o forno esá ligado para chegar na temperatura de 980oC, aproveita-se para dar uma caminhada pela chácara, que tem 50% de área de preservação, um córrego e cachoeira, portanto, ainda natureza. Aproveito sempre, nestas Vivências., para deixar evidente meu comprometimento com o meio ambiente, na preservação, cuidado e respeito pela Natureza e neste sentido, além das palavras, ainda coloco à disposição dos interessados mudas de flores, frutíferas, ervas medicinais que tenho e sempre espalho pelo nosso planeta. Quero dizer também que sempre ganho muitas flores, frutíferas e ervas, nos locais onde dou curso ou visito. Esta troca é fundamental para criar um patrimônio genético que pode ser usufruído por todo mundo, Principalmente porque o mundo inteiro está preocupado com taxas de crescimento e o Meio Ambiente e a Natureza estão indo prás cucuias, sem o menor escrúpulo.